quinta-feira, dezembro 24, 2015

Foi quase.

Foi quase violenta, se não fosse tão bom ouvir-te depois deste período (longo) de ausência, a forma como desligaste.
Foi quase mau saber que outra chamada imperava sobre a nossa conversa fútil que nas entrelinhas significa que estou louco para te ouvir e que respiro saudades.
Foi quase difícil escolher as palavras numa boca seca em luta com um coração arritmado para que a conversa se prolongasse.
Foi quase fácil sorrir na melodia do teu sotaque convencido.
Foi quase nada.
Quase tudo.
Obrigado Tinhosa.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Arrependi-me sempre das palavras.

E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

terça-feira, dezembro 15, 2015

Fome.

Volto à carga dos pretéritos como se o (nosso) mundo acabasse.
Não há fome sem fartura e este vício de te incomodar parece ter voltado em força.
Recordo os tempos em que a abstinência nos fazia pegar em força como animais no cio, até (nunca) nos saciarmos.

Tenho fome.
Ainda.
Sempre.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Mensário.

Querida Tinhosa,

É com natural ansiedade e estranha euforia que te escrevo, porque me resignei ao silêncio durante os últimos meses e anulei as frustradas tentativas de comunicação directa, por falta de resposta da tua parte, mas a verdade é já não consigo aguentar mais.

Devia ser proibido estar tanto tempo sem te ouvir.

Tenho tantas coisas para discutir, trivialidades e paneleirices que mais ninguém parece entender.

Fui ouvir o Rui à tua cidade emprestada. Quero conhecer o Pavilhão Atlântico. Ou a outra coisa que lhe chamam.
Trinta e cinco anos de canções. Os meus são apenas ilusões.
Ouvi esta e estavas aqui. Dentro.

Olho-te e não te vejo.

Bem sei que brinco sempre com o típico ódio regionalista à cidade, mas a verdade é que fiquei deliciado.
O Sol estava de bem com a vida e brindou-nos com um autêntico Verão de São Martinho, com a cidade a fervilhar de turistas e animação por todo o lado.

Encontrei-te mas não te vi.

Regresso à Capital. 
Quero conhecer o Coliseu. 
Não esperava um concerto tão intenso.
Adorei. 
Escutei-te mas não te ouvi. Fica esta para ti.

Regresso ao Continente. O frio já tomou conta da Terrinha. 
Os amigos conversam. Ouvem. Pouco escutam. Um tópico comum. Fugi para ti entre estórias cruzadas.
Visitei-te. Sem nunca ter anunciado encontro. Queria "Sentir Penafiel", mas no fundo apenas ter um pouco de nós.
Consegui falar-te. Sem nunca me ouvires. 

Arranquei gargalhadas dos presentes, não por serem eles o objecto da narrativa, apenas por ausência de outra ouvinte, como se da memória pudéssemos arrancar sentimentos que só eu sei replicar, que só tu viveste, que só nós inventámos, num tempo nosso.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

O sorriso.

Creio que foi o sorriso, 
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

segunda-feira, dezembro 07, 2015

Vem comigo!


vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu