Querida Tinhosa,
É com natural ansiedade e estranha euforia que te escrevo, porque me resignei ao silêncio durante os últimos meses e anulei as frustradas tentativas de comunicação directa, por falta de resposta da tua parte, mas a verdade é já não consigo aguentar mais.
Devia ser proibido estar tanto tempo sem te ouvir.
Tenho tantas coisas para discutir, trivialidades e paneleirices que mais ninguém parece entender.
Fui ouvir o Rui à tua cidade emprestada. Quero conhecer o Pavilhão Atlântico. Ou a outra coisa que lhe chamam.
Trinta e cinco anos de canções. Os meus são apenas ilusões.
Ouvi
esta e estavas aqui. Dentro.
Olho-te e não te vejo.
Bem sei que brinco sempre com o típico ódio regionalista à cidade, mas a verdade é que fiquei deliciado.
O Sol estava de bem com a vida e brindou-nos com um autêntico Verão de São Martinho, com a cidade a fervilhar de turistas e animação por todo o lado.
Encontrei-te mas não te vi.
Regresso à Capital.
Quero conhecer o Coliseu.
Não esperava um concerto tão intenso.
Adorei.
Escutei-te mas não te ouvi. Fica
esta para ti.
Regresso ao Continente. O frio já tomou conta da Terrinha.
Os amigos conversam. Ouvem. Pouco escutam. Um tópico comum. Fugi para ti entre estórias cruzadas.
Visitei-te. Sem nunca ter anunciado encontro. Queria "Sentir Penafiel", mas no fundo apenas ter um pouco de nós.
Consegui falar-te. Sem nunca me ouvires.
Arranquei gargalhadas dos presentes, não por serem eles o objecto da narrativa, apenas por ausência de outra ouvinte, como se da memória pudéssemos arrancar sentimentos que só eu sei replicar, que só tu viveste, que só nós inventámos, num tempo nosso.