terça-feira, agosto 23, 2016

O tempo não pára.

São quase 2h da madrugada e daqui por 8h celebro mais um aniversário.
Sem grandes contemplações, a idade e o resto não me deixam margem nem moral para divagar.
Hoje, (talvez mais caprichoso que noutro dia), quando apagar as velas do bolo que a minha querida mãe insiste em preparar, vou lembrar-te a sorrir. E chorar um pouco de nós. Cada ano que passa aumenta dramaticamente o friso cronológico do nosso Amor e não tenho coragem de inverter esse ciclo. 
O Amor não se esgota. 
Mas o tempo não pára.
Beijos Tinhosa.

domingo, agosto 21, 2016

Eternamente.


E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas no céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas do tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. 

Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo. 

Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste. 

E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e a das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu. 

E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter. 

Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos. 

E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

sexta-feira, agosto 19, 2016

É a cabeça que trava o coração.



Foi um processo longo e difícil, como sempre o são as aproximações entre duas pessoas habituadas a estarem sozinhas. Primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que parece instalar-se onde dantes estava a intimidade. É preciso saber passar tudo isso e conseguir chegar mais além, onde a cumplicidade - de tudo, o mais difícil de atingir - os torna verdadeiramente amantes. 

quarta-feira, agosto 17, 2016

Sangue quente.

Sem um pio os olhos descolam-se, a boca seca fecha-se no enterro da almofada, por entre os lençóis os dedos encontram as costas, os ossinhos salientes da coluna, a curva hemisférica e dividida do rabo. O outro par entreolha por entre o desgrenho da manhã, os lábios sorriem e exalam um bafo quente e sonoro, o nariz aninha-se em ombro alheio, as papilas activam-se ao sal da pele, as pupilas ao lusco-fusco.

Os corpos movem-se debaixo da roupa lenta, o quente sobe com o abraço, a pouca roupa abandonada peça a peça, perdida algures na cama. Os dentes roçam a carne, a pele engalinha-se, o pelo eriça-se, os mamilos endurecem e espetam-se no outro; um risinho abafado, quase infantil, sucede a mordidela fingida. As mãos exploram os corpos habituais, tocam onde sabem, primem onde podem, agarram onde têm, a respiração engrossa e cadencia-se. As inspirações e expirações viram um metrónomo, as línguas correm rápidas a boca, a cara, as pálpebras, o lóbulo, aquela faixa nua entre a orelha e o risco do cabelo, pescoço, axila, colo do peito, mais abaixo, mais abaixo, aí, aí, ai, menos, mais.

Cada um tenta uma coisa nova no corpo do outro, ambos recorrem a truques velhos de milénios, a negociação das idas e vindas é feita sem palavras, quase sem olhares, numa suavidade de reações epidérmicas e silenciares de respiração. As unhas riscam a pele, os dedos tocam humidades, as bocas dão-se molhadas, esfomeadas; ambos adiam o enlace definitivo só mais um bocadinho, só por desporto, só por maldade, só para prolongar o contágio, a mistura, o calor.

A temperatura começa a gemer a água dos corpos, alguém afasta lençol e cobertor num repente, pés e pernas organizam-se em passos sem necessidade de ensaio. Esgota-se a possibilidade de adiamento, do fingimento da fuga: os corpos juntam-se num resfolegar só, juntos e agarrados pelo prazer partilhado, orgulhoso, só deles solitários e luminosos. Deslizam pela cama, voltas e reviravoltas, deixam marcas húmidas na roupa agarrada, repuxada, cabeças penduradas da beira, almofadas expulsas para o chão pelo ritmo uníssono, carnudo, de olhos nos olhos, de boca nas bocas todas do corpo. A partilha roça a violência, ambos abusam só para se surpreenderem, uma mão agarra a trave da cama, outra apoia-se na parede, algo tomba da mesa de cabeceira.

O embalo algoz insiste até à partícula, até ao milésimo, até à falhada tentativa de pausa imediatamente anterior à pequena morte. Mas é fatal, um escorrega e arrasta o outro: as cores explodem, por um segundo tudo faz sentido, o mundo é plano e licoroso e ambos vêem claro e tudo e o todo; por um segundo toda a música vem de dentro, toda a fome e frio e medo e luto desaparecem, toda a espécie vive saciada, leões e cordeiros juntos e beatíficos.

Adiam o descolar dos corpos só mais um momento, enquanto reaprendem a respirar cada um sua respiração, enquanto no canto, a gata entediada repega a sonolência mole, enquanto lá fora a vida recomeça a escorrer.