quinta-feira, janeiro 26, 2017

Ser amado com amor

Amar é achar que tivemos sorte e que não merecemos sermos amados por quem amamos.

Amar é perceber, pensar ou descobrir que toda a nossa satisfação, alegria e paz dependem do parecer amoroso — ou não — de uma única pessoa, que amamos quanto vivemos e faz de cada um de nós quem é.

Ser amada ou amado é quase sempre independente de cada uma das nossas vontades.

Amar é achar que tivemos sorte e que não merecemos sermos amados por quem amamos.

O amor não é um ponto de contacto. É uma discrepância que se anuncia. É uma barreira contra o entendimento.

Amar é coisa de uma só pessoa. Há pessoas que precisam de ser amadas que são incapazes de serem amadas. Mas também há pessoas que facilmente se amam (e que se deixam ou não amar) mas que são incapazes de amar.

O amor é uma condição. Não é uma escolha. É o contrário de um destino. É um destino multiplicado por mil. Confunde-se com a nossa natureza. Confunde-se com a nossa existência. Confunde-nos e vence-nos porque amar, mesmo com um mínimo gigantesco de amor, facilmente se torna na maior — e mais linda — das nossas mais sinceras e menos ditadoras obrigações.

Amar é prescindir de quem somos, na esperança estupidamente optimista que o pouco que nos resta, depois de tão desnecessário e cruel exercício, seja, talvez atraente, conforme uma avaliação sado-masoquista que, de modo nenhum, corresponde à realidade.

Amar é pertencer a quem se ama, pelo amor que se tem a essa pessoa. Querer ser amado, tal como ser amado, pertence ao mundo do que não só não se sonha — como não existe.

Mas existe.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

sexta-feira, janeiro 06, 2017

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.


A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.


Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.