terça-feira, julho 09, 2019

Amo-te aí.

AMO-TE AÍ

CONTRA O MURO DESTRUÍDO 



Amo-te aí contra o muro destruído 

contra a cidade e contra o sol e contra o vento 

contra o outro que eu amo e se ficou 

como um guerreiro apanhado nas recordações 


Amo-te contra os teus olhos que se apagam 

e sofrem por dentro esta superfície vã 

e suspeitam vinganças 

e mortes por desolação ou por fastio 


Amo-te para além de portas e esquinas 

de comboios que partiram sem nos levar 

de amigos que se afundaram ascendendo 

janelas periódicas e estrelas 


Amo-te contra a tua alegria e o teu regresso 

contra a dor que estilhaça os teus seres mais amados 

contra o que pode ser e o que foste 

cerimónia nocturna por lugares fantásticos 


Amo-te contra a noite e o verão

contra a luz e a tua semelhança silenciosa

contra o mar e setembro e os lábios que te exprimem 

contra o fumo invencível dos mortos