terça-feira, dezembro 28, 2010

Talvez...

"O melhor para ti é que duvides até da sinceridade do meu amor, que tenhas a certeza de que era falso; que não saibas já se eu alguma vez deitei a cabeça nos teus joelhos ou se apenas sonhaste que assim foi. É preferível que não te iludas, que não esperes que tudo venha a ser como então, como se nada houvesse sucedido e eu não fosse o canalha que não quiseste ver em mim. Será melhor assim.
Ainda que eu saiba que te amei de facto e o quanto quis poder ficar, para sempre, aninhado no colo morno dos teus joelhos, fingindo que dormia, sentindo o gomo dos tus dedos traçar arabescos leves entre a escova mole dos meus cabelos. O mais certo é que te convenças de que o meu ciúme não era mais do que um exercício de posse, coisa de machos, mesmo que me suceda ainda acordar de noite com as costas molhadas, amordaçando um soluço, por sonhar que não é a minha cabeça que tens pousada nas pernas e que, mesmo assim, sorris com o teu sorriso breve enquanto afagas a cabeça desse que não sou eu."

quarta-feira, novembro 03, 2010

Eugénio de Andrade




Entre os teus lábios

é que a loucura acode,

desce à garganta,

invade a água.



No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.



Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.



Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.



Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.






































Estar em mim

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

terça-feira, outubro 19, 2010

Sem ti.

A noite passada

Foi somente mais uma noite.

Sem luar,

Sem arte,

Sem poesia,

Sem ti.

Volta!

Volta até mim no silêncio da noite

a tua voz que eu amo, e as tuas palavras

que eu não esqueço. Volta até mim

para que a tua ausência não embacie

o vidro da memória, nem o transforme

no espaço baço dos meus olhos. Volta

com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário

vestido com a mortalha da névoa; e traz

contigo a maré da manhã com que

todos os náufragos sonharam."

quarta-feira, outubro 06, 2010

O Gato

Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.

Tiago Bettencourt & Mantha - Só Mais Uma Volta



Só mais uma volta

Só mais uma volta a mim

Só mais uma volta desta ninguém vai cair

Só mais uma vez que vês que ninguém está aqui

Queres só mais uma volta desta ninguém vai cair



Tempo frio afasta o tempo que nos afastou

Primavera lança o laço que nos amarrou

Tempo quente dá vontade de não resistir

Vai só mais uma volta desta ninguém vai cair



E ainda te sinto a seguir o rasto que deixo a correr

Ainda penso em ti... pensa em mim, mas só mais uma vez.



Diz-me ao que queres jogar que eu vou querer também

Diz-me quanto queres de mim para te sentires bem

Não te vejo bem ao longe não sei distinguir

Queres só mais uma volta e desta ninguém vai cair



Ainda te sinto a seguir o rasto que deixo a correr

Ainda penso em ti... pensa em mim, mas só mais uma vez.



Diz-me quanto tens de honesto quanto tens de bom

Diz-me quantas provas queres diz-me quanto sou

Já não sinto nada dentro não sei perceber...

Vai só mais uma volta, desta ninguém vai dizer.



Ainda te sinto a seguir o rasto que deixo a correr

Ainda penso em ti... pensa em mim, mas só mais uma vez.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Saudade

Tenho preguiça de tudo que inclua tua falta

há um mundo inteiro lá fora

um mundo inteiro pela metade na tua ausência

no dia económico em palavras e vontades

só é completa a saudade.

quarta-feira, setembro 01, 2010

I carry your heart with me

I carry your heart with me (I carry it in my heart)

I am never without it (anywhere I go you go,my dear; and whatever is done

by only me is your doing,my darling)

I fear no fate (for you are my fate,my sweet)

I want no world (for beautiful you are my world,my true)

and it's you are whatever a moon has always meant

and whatever a sun will always sing is you



Here is the deepest secret nobody knows

(here is the root of the root and the bud of the bud

and the sky of the sky of a tree called life;which grows

higher than the soul can hope or mind can hide)

and this is the wonder that's keeping the stars apart



I carry your heart (I carry it in my heart)

Os Livros

em cada página, o teu olhar, em cada montanha,

a tua voz, deixa-me falar contigo. lembro-me

tão bem de tudo o que me disseste.



as palavras existem. eu quero encontrar-te

sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis

desarrumados onde desarrumo a nossa vida.



em cada página, os campos, em cada montanha,

tu a chamares-me, as páginas são, outra vez,

o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.



passam anos sobre as palavras. os dias existem.

seguro os livros como se segurasse a tua voz

e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.



In, “A Casa, a Escuridão”



um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.



e a luz compreenderá a impossível compreensão o amor.

um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for

tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada

de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da

nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso

será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi

nem uma palavra, nem o principio de uma palavra, para não estragar

a perfeição da felicidade.



In, “A Criança em Ruínas”

Gargalhada

"Quando me disseste que não mais me amavas,


e que ias partir,

dura, precisa, bela e inabalável,

com a impassibilidade de um executor,

dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias...

Mas olhei-te bem nos olhos,

belos como o veludo das lagartas verdes,

e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,

tive pena de ti, de mim, de todos,

e me ri

da inutilidade das torturas predestinadas,

guardadas para nós, desde a treva das épocas,

quando a inexperiência dos Deuses

ainda não criara o mundo..."

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus dedos

se ter formado o afago

sem termos sido a cidade

nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor

nem o interior da erva.



Como é possível perder-te

sem nunca te ter achado

minha raiva de ternura

meu ódio de conhecer-te

minha alegria profunda.

quinta-feira, junho 17, 2010

Chove... no meu peito

As coisas vulgares que há na vida

Não deixam saudades

Só as lembranças que doem

Ou fazem sorrir



Há gente que fica na história

da história da gente

e outras de quem nem o nome

lembramos ouvir



São emoções que dão vida

à saudade que trago

Aquelas que tive contigo

e acabei por perder



Há dias que marcam a alma

e a vida da gente

e aquele em que tu me deixaste

não posso esquecer



A chuva molhava-me o rosto

Gelado e cansado

As ruas que a cidade tinha

Já eu percorrera



Ai... meu choro de moça perdida

gritava à cidade

que o fogo do amor sob chuva

há instantes morrera



A chuva ouviu e calou

meu segredo à cidade

E eis que ela bate no vidro

Trazendo a saudade

sábado, maio 15, 2010

Telepathos

"(...)Em mim há todas as contradições - e só assim se explica que te deseje com este excesso que a distância torna em ferida e ao mesmo tempo com todo o amor e ódio de todos so homens por todas as mulheres, amor feito desta intensa espera de te penetrar e redescobrir, mas também de angústia, receio do definitivo; de infinita ternura, mas também de pânico, ou de espanto da abertura para a morte que é a aniquilação no outro.
Agora posso dizer-te, agora sim, como te quero. Corres-me no sangue, sinto-te na língua, nas mãos, no sexo, no cheiro, nas contracções do estômago, no tremor de todo o corpo, arredondas-te na noite que me envolve, reconheço-te até no tempo em que não te conhecia, na aspereza dos chaparros e no seu drama, na lua cheia de Outono, cor-de-laranja, nas folhas pisadas como as tuas pálpebras, sinais de ausência, lareira de veludo (tão longe!) montanha chaga que não se deixa escalar.(...)

quarta-feira, abril 21, 2010

Efeito secundário (lado B)

O acto simples de estender a mão na luz e tocar-te

irá coincidir com os meus dedos a transformarem-se

em cores, nuvens de pó lançadas no ar. Esse será o

primeiro efeito da magia. Chamar-lhe-emos magia

por causa das crianças, mas saberemos que, em rigor,

será apenas uma ilusão. Talvez seja nesse instante

que os lábios começarão a fazer o playback de todo

o silêncio, como um beijo antigo, gravado noutro

disco. O efeito secundário dessa fotografia, desse

postal, desse pôr-do-sol, será um bombardeamento

de planos para o futuro, filhos em projecto, iremos

escolher mil nomes para menino, mil nomes para

menina, iremos perder tempo a pensar nos nomes

que daríamos se fôssemos ingleses, americanos, e

falássemos em inglês, americano, como as pessoas

felizes e garridas dos filmes de domingo à tarde

no primeiro canal, ou franceses e chatos, como as

pessoas tristes dos filmes de segunda-feira à noite

no segundo canal. O primeiro efeito desse instante

será um ardor à volta dos lábios ou a repetição da

guerra do Vietname, da mesma maneira que um

ciclone na China faz uma borboleta bater as asas

e pousar-me involuntária entre os olhos, asas como

óculos de cor, nuvens de pó lançadas no ar, ou

como esperança apregoada nas ruas por multidões

indecisas, confusas, incertas, frágeis, feitas de

homens humanos, mulheres humanas e crianças-

-crianças, futuros homens e futuras mulheres,

prontos a repetirem todas as nossas dúvidas e todas

as vezes que olhámos o horizonte. E talvez o seu

melhor momento seja um espelho estragado, um

penteado definitivo ou a constatação humilde

de não serem mágicos, mas ilusionistas, donos

de um espectáculo honesto, como nós agora

a sermos o efeito principal e secundário de tudo

o que chega a nós, de tudo o que parte de nós,

de tudo o que nos ignora, nos transcende e nos

lança pela eternidade a partir do instante simples

em que estendo a mão na luz e, simples, te toco.

Já fui...

Já fui amante
Do teu poema
E viajante
No pensamento
Sou navegante
Mas vale a pena
Ser eu cantante
Do próprio vento.

Sei de um rio

Sei de um rio, sei de um rio

Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas

São as luzes da cidade

Sei de um rio, sei de um rio

Onde a própria mentira tem o sabor da verdade

Sei de um rio…

Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio

Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua

E a minha boca até quando ao separar-se da tua

Vai repetindo e lembrando

Sei de um rio, sei de um rio

Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio

Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua

E a minha boca até quando ao separar-se da tua

Vai repetindo e lembrando

Sei de um rio, sei de um rio

Sei de um rio, até quando



Pedro Homem de Melo – Alain Oulman
in Sempre de Mim, 2008

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Meet Joe Black

"Love is passion, obsession, someone you can't live without. If you don't start with that, what are you going to end up with? Fall head over heels. I say find someone you can love like crazy and who'll love you the same way back. And how do you find him? Forget your head and listen to your heart. I'm not hearing any heart. Run the risk, if you get hurt, you'll come back. Because, the truth is there is no sense living your life without this. To make the journey and not fall deeply in love - well, you haven't lived a life at all. You have to try. Because if you haven't tried, you haven't lived."

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Café e Maionese

Um professor diante da sua turma de filosofia, sem dizer uma palavrapegou num frasco grande e vazio de maionese e começou a enchê-lo com bolasde golfe.A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio.Todos estiveram de acordo em dizer que "sim".O professor pegou então uma caixa de fósforos e despejou dentro do frasco.Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as Bolas de golfe.O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e elesvoltaram a responder que "Sim".Logo, o professor pegou uma caixa de areia e a despejou dentro dofrasco.Obviamente que a areia preencheu todos os espaços vazios e o professorquestionou novamente se o frasco estava cheio.Os alunos responderam-lhe com um "Sim" retumbante.O professor em seguida adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frascoe preencheu todos os espaços vazios entre a areia.Os estudantes riram-se nesta ocasião.Quando os risos terminaram, o professor comentou:"Quero que percebam que este frasco é a VIDA.As bolas de golfe são as coisas importantes, como Deus, a família, osfilhos, a saúde, os amigos, as coisas que vos apaixonam".São coisas que mesmo que perdessem tudo o resto, a vossa vida ainda estariacheia.Os fósforos são outras coisas importantes, como o trabalho, a casa, carro,etc.A areia é tudo o resto, as pequenas coisas."Se primeiro colocamos a areia no frasco, não haverá espaço para osfósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida!Se gastamos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas,nunca teremos espaço para as coisas que realmente são importantes.Prestem atenção às coisas que realmente importam.Estabeleçam as vossas prioridades, e o resto é só areia!"Um dos estudantes levantou a mão e perguntou:- Então e o que representa o café?O professor sorriu e disse: " Ainda bem que perguntas!isso é só para lhes mostrar que por mais ocupada que a vossa vida possaparecer, sempre há lugar para tomar um café com um amigo".Quando as coisas da vida te parecerem demasiadas, lembra-te do frasco demaionese e café.VAI UM CAFÉ?

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Saudade...

Saudade é não saber de ti.
É sentir-te sem poder.
É acordar e ter certeza que não vais estar ali.
Olhar para nada sem saber nada.
É querer voltar num tempo que já não existe ...
Querer teus beijos, teu olhar,
e ter certeza que não são mais meus.
Saudade é o muito que ficou de ti dentro de mim,
é aquilo que nunca talvez saibas.
Saudade é não ter quem se ama perto
e de repente eu mesma não me bastar
e arrastar uma solidão infinita
olhar.. e olhar.. e não te ver...
não te ter.....
Saudade é procurar fugir para todos os lugares
é tentar parar o pensamento
e encontrar outro pensamento
e querer não chorar quando oiço uma música que era parte de ti
É querer que o tempo volte
e que talvez nada tenha existido
para que não existisse agora esta dor horrível
ou talvez que tudo tivesse existido
para que sempre houvesse o que recordar
Saudade...
é o que sinto de ti....."