A Dor da Verdade
A dor da verdade não mata
mas corrói, queima, deixa uma impressão
que paralisa as células,
todos os pedaços de que somos feitos
do momento mais minúsculo, inoportuno,
à profundeza da noite mais escura,
mais larga ou funda como o oceano.
A dor da verdade é terrível,
ela lembra tudo, chama, decompõe
o que estava sintetizado, esquecido,
arrumado no canto mais banal,
e traz à superfície todas as paisagens,
cheiros, momentos, tudo quanto é inesperado
e não depende da vontade ou do querer.
A dor da verdade é como uma criança
perdida sem um colo que a receba,
um sorriso desperdiçado, posto na lama
por não haver outro que o mime
ou um olhar que se turva e esconde,
mesmo quando o gesto é ternura
e todas as palavras tentam dizer amor.
A dor da verdade prende, pica
como uma roseira brava qualquer
e se são lindas essas rosas abertas
o perfume que deita toda a primavera
mesmo quando parece que o tempo parou
e se fez inverno para sempre
e o ritmo é andante, lento, lentíssimo.
A dor da verdade é como a morte
deixa um frio que percorre o corpo,
põe a chorar os amigos que a olham
faz crescer as palavras mentira, é mentira,
busca o desejo de fuga, um manto
e leva muito tempo a passar, tanto
que nunca sabemos se cura.
Mas a dor da verdade liberta
como uma ferida arrancada, exposta,
recebe, pulmão aberto, ar fresco
e alivia, sossega, acalma,
traz, finalmente, de volta o sono,
a vontade de rir, a mais forte alegria de viver,
o sol iluminando em festa.
A dor da verdade é dura
mas recompensa, faz crescer
como criança outra vez, amplia,
faz recomeçar tudo um primeiro tempo
e assim como castiga, perdoa,
como afasta, une, abraça depois e diz
custou tudo muito, mas valeu a pena.
A dor da verdade
- vão dizer-vos o oposto -
não nos prende. Liberta.