"Éramos jovens e corríamos pela vida com corpos saudáveis e belos, dormíamos abraçados à espreita do outro lado da noite e como vampiros de amor bebíamos a vida um do outro avidamente e despertávamos juntos, abraçados à hora em que as gaivotas levantam o primeiro voo.
Éramos jovens e belos, meu amor.
Descalços pela areia fora, deixávamos pegadas que brilhavam no sol da manhã, aquele sol primordial que não feria o olhar ainda, de mãos dadas não queríamos saber do futuro e desafiávamos a vida como forcados frente ao touro, corríamos, corríamos, corríamos até ao paroxismo fatal encoberto pelas sombras de uma árvore qualquer.
Éramos jovens e belos e eu lembro-me, meu amor.
Lembro-me quando te olho, à noitinha, enquanto dormes naqueles sobressaltos que te agitam o corpo (os sonhos, esses são só teus e eu não os conheço), lembro-me quando te olho nos olhos, esses lagos nocturnos onde me afundo até perder os sentidos, eu lembro-me.
O tempo, esse inimigo da vida, não deixou de passar por nós e, em vez de nos dar mais saber, mais harmonia, deu-nos somente a necessidade de mais tempo, a frustração de sabermos que, suceda o que suceder, não há-de nunca voltar atrás e fico a pensar em porquês nunca respondidos, em vazios nunca preenchidos, naquelas coisas que nunca fiz e que agora nunca hei-de fazer (são coisas que têm um tempo próprio, ou são feitas ali, ou nunca.), em tudo o que nunca te disse.
Nunca cheguei a escrever aquela canção de amor, as palavras que surgiam não eram as adequadas e agora, que as sei, tenho a impressão de estarem deslocadas, medo de algum dia terem sido ditas por outro alguém e, a dizê-las, oferecer-te recordações que não são minhas.
Então fico a ruminar pensamentos de livros (tantos, tantos livros que li, tantas ideias recolhi e nenhuma, uma só que fosse, me ensinou a viver) que me expliquem o que se passa, o que fazer. “Que adianta entoar cânticos ou louvar sermões se talvez só o silêncio seja verdadeiro?”
Frase completamente inútil, sei-o agora.
O meu silêncio, o nosso silêncio, mata.
Hei-de te escrever a tal canção de amor, juro-te – mas, por favor, não te apoquentes se esta começar por “Éramos jovens e belos, meu amor”."