terça-feira, março 31, 2015

O último a esquecer.

(...)
Mas gostava que reparasses nisto: uma corrida ganha pelo último a chegar à meta. A metáfora é evidente.
Os velhos acreditam que têm mais passado do que futuro. Por isso, prestam mais atenção a memórias do que a previsões. Interessa menos o futuro em que não se imaginam do que o passado ainda disponível para esmiuçar infinitamente, não faltam reflexões possíveis sobre o que sabem que existiu, o que testemunharam e sentiram com a força e a verdade dos sentidos. Sim, existe uma verdade nos sentidos, é inegável para quem a viveu. É ela que dá substância às metáforas, mesmo que seja preciso anos para reconhecê-la.

Os velhos não têm dúvidas de que o passado ainda não passou, como escreveu Faulkner. Aquilo que só hoje soubemos acerca do que já passou é presente e, como um gancho, puxa esse episódio para o tempo em que estamos. Se achávamos que o passado era uma coisa e, depois, percebemos que era outra, então o passado ainda está em evolução, ainda não passou.

Nas corridas de Carnaval, nessas bicicletas em que tentávamos andar tão lentamente como se não andássemos sequer, subtraíamos tempo ao tempo, resistíamos. Onde estarão agora esses segundos ou minutos? Procuro-os à minha volta. Velho, distingo restos dessas manhãs entre o que sou capaz de pensar. O que vivemos ainda está aqui, só quem fomos desapareceu para sempre.


segunda-feira, março 30, 2015

Dentro de mim, te procuram.

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.


Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

sexta-feira, março 13, 2015

Magoa-me.

Magoa-me a saudade

do sobressalto dos corpos

ferindo-se de ternura

dói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés


Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta


Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono

domingo, março 01, 2015

Eternidade.

Passaram eternidades desde a última vez que cá passei.
Tenho tentado, ainda que timidamente, afastar-me lentamente deste processo muito singular, intimista.
Nunca tive qualquer intenção obter resposta ou procurar o contraditório, até porque iria despertar demasiadas perguntas para as quais ainda não tenho resposta.

O que felizmente tenho procurado, bem sabes, é encontrar sorrisos através da simplicidade com que outrora nos ligámos, sem esperar mais nada do que o teu sorriso.

Desejar-te bom fim de semana foi, sem dúvida, um exercício de contenção, por saber que não devo sequer tentar importunar-te durante os próximos dias.

Vou sonhar-te.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Banda sonora.

Estou completamente divido.
Em ser oportunista, não deixar escapar esta vantagem de  conversar contigo quase todos os dias.
Ou então calar-me. Não abusar da sorte ou esticar a corda.
Não há banda sonora que coloque a rolar, capaz de substituir esse sotaque genuíno e timbre moderado.
Não. Não precisas cantar para mim... por favor!!!!!

Sinto mesmo vontade de te ouvir.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Muito.

Tenho.
Preciso.
Quero.

Saudades de ti.
Do teu abraço.
Ouvir a tua voz.

sábado, fevereiro 21, 2015

Um dia, perdido, em que nos encontrámos.

Quando chegaste - esquálida e coberta de adjectivos
que rejeitavas, que te seguiam - o silêncio deixou
de ser solene.

Atirámos frases inteiras às paredes, somos crianças,
e rimo-nos. A história escreveu-se longe
das nossas mãos.

Não sabemos mais verdades do que a nossa.

Existiu um dia, perdido, em que nos encontrámos.
Podíamos celebrá-lo com discursos estruturados e
insignificâncias. Preferimos comê-lo - é um bolo
de creme.”


sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Tinhosa amiga.

Depois de 54m de conversa, praticamente sobre tudo e sobre nada, fiquei ainda mais com saudades.
Até dessa tosse seca, que intermitentemente surgia entre o nosso diálogo apaziguador.

Antes de seres o meu amor, a minha amante, foste minha amiga e confidente.
Neste momento, só e apenas isso me deixa feliz.
Saber-te feliz e provocar-te o riso, também só nos poderá ajudar.
Saudades Tinhosa amiga da minha vida.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Mau.

Cumprimento sempre as pessoas. Até as que me ignoram.
Sorrio quase sempre para as crianças e os idosos.
Sou caridoso com os que mais precisam. 
Contribuo nas campanhas de solidariedade, dou roupas usadas e não nego uma sopa a quem tem fome.

Não sou mau Tinhosa. 
Mas fui muito mau contigo.

Fiquei mesmo triste e pensativo com as tuas palavras.
Bem sei que muitas delas, como de tantas outras vezes, não foram sentidas, mas não posso deixar de te dar razão.
Lamento todos os dias, estas atitudes que tantas vezes acinzentaram a tua vida e que ainda recordas nos dias tristes.
Prometo torcer todos os dias pela tua felicidade, como se de uma religião se tratasse, para que não sofras nem vivas mais pretéritos negros.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Magoa-me.

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Saborear uma ilusão.

"Tinhosa linda, Pedro Chagas Freitas escreveu que saborear uma ilusão, vale todas as desilusões do mundo. Você é a prova disso. Um beijo bom. E uma saudade imensa. "

domingo, fevereiro 15, 2015

Vitamina.

Uns expressivos raios de Sol, conseguiram trazer o calor para finalmente abandonar a cama e procurar vitamina D.
No rescaldo do dia dos agrafados e de mais um desfile de Carnaval, relembro as loucuras pretéritas em que tudo fazia para terminar a noite ao teu lado.
Não sei se do álcool ingerido ou das horas a dançar, as noites e os dias tinham outro calor.
Esse que nem este brilho consegue trazer.
Saudades tuas Tinhosa.
Espero-te bem.

sábado, fevereiro 14, 2015

Everything from the beginning.



Se to digo é porque o sinto.
Nem sequer pela data em especial.
Nunca a celebrei a não ser contigo.
E não tua ausência, dou por mim a querer celebrá-la, só porque isso significaria ter-te aqui.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Gripe.

Cada vez mais acredito que o estado da alma é crucialmente importante para o corpo se manter são, resistindo a este inverno que (des)habita o meu coração. A doença e enfermidade também se apoderou, pela milésima vez este ano. Aí, posso afirmá-lo com clareza, a culpa é totalmente tua.
Saudades. 

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Verdade.

Estou doente, carente.
E tu, com sempre, ausente.

Estou saudoso, remeloso chateado.
Tu, para não variar, não estás a meu lado.

Poesia de da verdade de "La Palisse", que mesmo assim não contribui para sossegar esta estado de corpo e de alma que me atormente.
Não saber de ti, ainda mais complica.

Saudades.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

domingo, fevereiro 08, 2015

Só ficará.


Só ficará de ti o que fizeste
por amor.
O resto não valeu:
foi apenas poeira que se ergueu
em teu redor
e o vento varreu.


Só ficará de ti o que escreveste
com paixão.
O resto não contou:
foi tão-só uma sombra que passou,
pura ilusão,
e nem rasto deixou.

Nos teus beijos.

Nem mais nem menos.
Não foi nada de especial. 
Nem consigo, como tantas vezes e de forma muito rebuscada, fazer interpretações livres e voar nas tuas palavras.
Mas nas teus beijo posso sempre encontrar calor.
Único e especial para estes dias frios.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Lábios frios.