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Mas gostava que reparasses nisto: uma corrida ganha pelo último a chegar à meta. A metáfora é evidente.
Os velhos acreditam que têm mais passado do que futuro. Por isso, prestam mais atenção a memórias do que a previsões. Interessa menos o futuro em que não se imaginam do que o passado ainda disponível para esmiuçar infinitamente, não faltam reflexões possíveis sobre o que sabem que existiu, o que testemunharam e sentiram com a força e a verdade dos sentidos. Sim, existe uma verdade nos sentidos, é inegável para quem a viveu. É ela que dá substância às metáforas, mesmo que seja preciso anos para reconhecê-la.
Os velhos não têm dúvidas de que o passado ainda não passou, como escreveu Faulkner. Aquilo que só hoje soubemos acerca do que já passou é presente e, como um gancho, puxa esse episódio para o tempo em que estamos. Se achávamos que o passado era uma coisa e, depois, percebemos que era outra, então o passado ainda está em evolução, ainda não passou.
Nas corridas de Carnaval, nessas bicicletas em que tentávamos andar tão lentamente como se não andássemos sequer, subtraíamos tempo ao tempo, resistíamos. Onde estarão agora esses segundos ou minutos? Procuro-os à minha volta. Velho, distingo restos dessas manhãs entre o que sou capaz de pensar. O que vivemos ainda está aqui, só quem fomos desapareceu para sempre.
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