quarta-feira, novembro 03, 2010

Eugénio de Andrade




Entre os teus lábios

é que a loucura acode,

desce à garganta,

invade a água.



No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.



Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.



Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.



Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.






































Estar em mim

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.