Os olhos brilham intensamente, a alma transpira emoções e eu sinto porque o coração começa a bater mais rápido e a necessidade de uma demonstração física vem ao de cima. Não basta um olá, um adeus ou um sorriso, por muito rasgado que ele seja. Preciso de te passar tudo aquilo que estou a sentir, a intensidade, o calor, sobretudo o calor, para que não haja dúvidas. Não és uma pessoa qualquer, por isso mereces o que de melhor tenho, é a forma mais pura, humana e genuína que posso encontrar para simbolizar a alegria deste momento, a força das relações, o que de melhor tem um ser humano. Um gesto vale mais do que mil palavras, costumam dizer, e não há nada que eu possa transmitir-te mais sincero que um abraço.
Acho que acabámos por perder na história a essência desta profundidade, chegar, olhar, sorrir, abrir os braços e passar emoções, mundo, encostar, fechar, sentir, dar e receber, transmitir, envolver e deixar ir. Vejo por aí muitos abraços sem vida, sem razão, sem respeito pelo gesto, coisa banal que se subjugou ao beijo que se deixou ultrapassar pela frieza e egoísmo do premeditado, do formatado, do “porque sim”. Quem não sabe abraçar e quem não gosta de ser abraçado perdeu o chão, morre lentamente sem saber, deixou-se levar pelo material, esqueceu o respeito e o amor-próprio.
Lembro-me, na minha passagem por Moçambique, onde vivi e que tantas saudades me deixou, que era hábito no fim de um evento, de uma festa ou de um qualquer acontecimento, se as pessoas estavam bem, felizes e bem-dispostas, abraçarem-se umas às outras como que a partilhar o momento, como que a criar um elo que nos ligava a todos e nos colocava a sorrirmos estupidamente uns para os outros. No princípio não percebia bem o que isto era, mas deixei-me levar. De facto, passados uns meses, era coisa que não dispensava, abraçar os amigos, os que estavam na mesma sintonia que eu, os que não queriam a alegria só para eles.
Muito daquilo que somos, do que sentimos por alguém ou mesmo da nossa essência, as nossas próprias idiossincrasias e estados de espírito transmitem-se por esta forma de afecto. É a nossa transparência, o nosso nu, a nossa realidade. As pessoas deviam abraçar-se mais, sentirem-se mais, passarem umas às outras emoções positivas, energias revitalizadoras. É óbvio que há pessoas mais físicas que outras, mais extrovertidas que outras, mas nada deve impedir-nos de nos empurrarmos/mandarmos para cima uns dos outros, e tantas vezes, em tantas alturas, bastava um só aperto destes, profundo.
E aquele que te dou é só teu, e a forma como o faço é só para ti, e o que transmito é só nosso, por isso devia ser mais valorizado, mais sentido, mais usado. Porque sei que te gosto também assim, porque te vai fazer sentir melhor, porque temos de ser uns para os outros, porque te dá confiança e me faz sentir bem. Temos a obrigação de nos fazermos sentir bem, representes tu para mim o que for. No fim do dia ou no início da manhã, depois de almoço ou a meio de uma festa, aperto-te para te mostrar que há em mim algo de ti, que a minha força é tua e que to demonstro num simples abraço…


