Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
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O meu primeiro amor
Acordava a pensar em ti com a fotografia que uma amiga tua me havia cedido depois de duras negociações. Debaixo da almofada e guardada na página 77 de um livro que acabei por nunca ler. Só para que não se estragasse.
E acordava bem antes do despertador tocar na ânsia de te ver e novamente depois do primeiro intervalo. Logo eu que adorava (e ainda adoro...) dormir! Mas para te ver tudo era diferente! Atrasava-me para a primeira aula para te mirar lá do fundo a entrares para a tua sala na esperança que ninguém me visse dada a minha timidez.
Engendrava esquemas altamente elaborados para nos cruzarmos um com o outro o máximo de vezes possível até jogos de futebol com os teus colegas para que te visse nas bancadas com as tuas amigas. Na fila de almoço ficava a contar o tempo para que “por coincidência” ficássemos perto um do outro e com o coração bem apertado e nas mãos do meu melhor amigo lá seguia o primeiro bilhete depois de mil rascunhos e rabiscos num tom amigavelmente provocador que sempre me caracterizou.
Éramos felizes assim, entre elogios e combinações temendo que as férias de Verão chegassem e pudessem romper com este amor eterno. Demos a mão para aí à sexta vez, lá ao fundo depois do campo da bola, e o primeiro beijo na boca depois de uma festa que organizei só para que pudesses ir pela primeira vez a uma discoteca. Eras a mais gira de todas, disso não tinhas dúvidas, e eu o mais sortudo do liceu. Nas nossas combinações ousadas a jogar o Bate Pé e mais tarde o Verdade ou Consequência todos percebiam que estávamos a jogar um para o outro e que mais nada interessava. Nada nem ninguém, nem a Claudia Schiffer se aparecesse naquele momento me faria desviar o olhar de ti.
Mesmo com frio muitas vezes aparecias de top curto só para que as outras vissem que te emprestava o casaco, dedicávamos músicas e letras um ao outro como se elas nos pertencessem e as tivéssemos escritos um para o outro. Passava horas no regresso a casa à procura de um defeito teu mas era impossível porque eu tinha encontrado a perfeição e só de pensar que um dia te poderia perder, que nos poderíamos afastar, dava-me uma dor tão, mas tão forte no peito que eu garantia à minha mãe ter estado próximo de um ataque cardíaco.
Foste comigo nos meus sonhos a países, ilhas e planetas que percebi anos mais tarde nunca terem existido, mas concebia-os com tanta convicção com tanto carinho e pureza que tenho a certeza se eles fossem verdadeiros o mundo seria bem melhor. Fomos muito felizes ali, mas também o era em qualquer coisa que tivesse a ver contigo. Tipo “Lagoa Azul”.
Mostraste-me o que é gostar de alguém, a simplicidade dos afetos, a impetuosidade dos sentimentos mais genuínos, a leveza do que vem de dentro e nos baralha, nos confunde e nos emociona. Momentos perfeitos podem ser segundos. Naquela altura tudo era um sorriso , foi quando nasceram pela primeira vez as borboletas no meu estômago…!
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01/04/2016 José Paulo do Carmo,
Jornal i
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