quarta-feira, janeiro 19, 2022

É urgente permanecer.


É urgente o amor. 


É urgente um barco no mar. 


É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. 


É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhas claras. 


Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. 


É urgente o amor, é urgente permanecer.

terça-feira, janeiro 18, 2022

Escreve-me como se ainda me amasses

 Doce é o sacrifício dos frutos, fraterna

a luz dos pássaros. A terra canta, exibe agora

o esplendor dos vulcões, para acender na noite

o imenso candelabro do universo.


Ofereço a mim todas as vidas, todos os segredos

por detrás da aurora. Amo todo o silêncio,

toda a dor redonda de cada um dos dias.


O que vejo, o que sinto, é a respiração

das palavras, hálito doloroso das colinas da tarde,

a curva da fala que se demora na ternura das mãos

e de onde tomba o oiro dos relâmpagos ou

se debruça a luz fria das primeiras horas.


Escreve-me como se ainda me amasses.

E eu guardarei o fogo. Dar-te-ei o sol. Talharei o sílex

para o coração azul do pássaro. E o tecido dos beijos

para vestir a pele das coisas mais agrestes.


Dividirei com a tua boca o feroz vinho da juventude

e cantarei contigo todos os salmos da paixão.

Por fim, esperar-te-ei no rio, junto à margem. Onde

as romanzeiras se despedem do verão.


E onde, agonizante, caminha para o sol

o animal que aos poucos morre de tristeza.