quarta-feira, maio 31, 2023

Basta-me que o teu olhar me encontre.

Toca-me, conjuga um verbo que conheças

no presente do indicativo, soletra-o na segunda pessoa

do singular ao meu ouvido, dá-me qualquer coisa

que me pareça eterno

Basta-me que o teu olhar me encontre




segunda-feira, maio 22, 2023

Prometo que não choro.

 desenha com a ponta dos teus dedos

as fronteiras exactas do meu rosto

as rugas    os sinais     a cicatriz que ficou da infância

o lento sulco das lâminas onde no peito

se enterra o mistério do amor


e diz-me

o que de mim amaste noutros corpos

noutras camas       noutra pele


prometo que não choro mas repete

as palavras um dia minhas que sem querer

misturaste nas tuas e levaste

com as chaves de casa e os documentos do carro

– e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio

na primeira madrugada em que me esqueceste

quinta-feira, maio 18, 2023

segunda-feira, maio 15, 2023

Ferida.

Entre a saliva e os sonhos há sempre

uma ferida de que não conseguimos regressar.

quinta-feira, maio 11, 2023

Para ser sentido.

Apetece-me escrever um poema.  

Um poema fechado dentro si 

para ser compreendido 

apenas 

pelos passarinhos que chilreiam lá fora 

sobre as três árvores 

da minha única paisagem; 

para ser sentido 

na canção da seiva 

circulante no verde das ervas

 do caminho áspero da encosta; 

e pelo brilho do sol 

e pelo carácter íntegro dos homens.  


quarta-feira, maio 10, 2023

Por muito que a ame.

"(...) Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado

A flor que se abrir é já um pouco de ti, e a flor que te estendo,

Mesmo que a recuses

Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,

A colherei.(...)"

terça-feira, maio 09, 2023

Da tua porta aberta.

 Precisava falar-te ao ouvido

De manter sobre a rodilha do silêncio

A escrita.

Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.

Da indigência. E da fadiga.

Da tua sombra sobre a minha sombra

E da tua casa

E do chão.



segunda-feira, maio 08, 2023

Gosto tanto dela que não sei como a desejar.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.



terça-feira, maio 02, 2023

Para que a tua ausência não embacie o vidro da memória.

Volta até mim no silêncio da noite a tua voz que eu amo, e as tuas palavras que eu não esqueço. Volta até mim para que a tua ausência não embacie o vidro da memória, nem o transforme no espelho baço dos meus olhos. Volta com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário vestido com a mortalha da névoa; e traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam.