A tua extinção é ainda um fogo.
Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
segunda-feira, março 02, 2026
terça-feira, fevereiro 10, 2026
Estávamos tão próximos das despedidas
nunca digas
«para sempre»
meu amor
como disseste uma vez
já nem te lembras
a manhã entrava
pela janela do quarto
estávamos tão próximos das despedidas
e a luz era tanta
que ainda hoje
nos cega
terça-feira, fevereiro 03, 2026
Trouxeste a manhã da minha noite.
Em quem pensar, agora, senão em ti?
Tu, que me esvaziaste de coisas incertas,
e trouxeste a manhã da minha noite.
quinta-feira, janeiro 29, 2026
A única que vale a pena.
A vida afectiva é a única
que vale a pena. A outra
apenas serve para organizar
na consciência o processo
da inutilidade de tudo.
quarta-feira, janeiro 28, 2026
Guardas um pedaço de céu.
os dias caindo, sem um pássaro que os leve,
e nenhum risco de luz
que caiba no dia seguinte.
quando corres a cortina,
guardas um pedaço de céu,
e duas aspas, caladas,
à espera de ter nome.
fazes o quê com o medo que te resta?
quarta-feira, janeiro 21, 2026
Oração.
Livra-nos, Senhor,
de nos encontrarmos,
anos depois,
com os nossos grandes amores.
terça-feira, janeiro 13, 2026
O que o tempo nos rouba.
Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando não te vejo
ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios
mesmo esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo,
para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.
segunda-feira, janeiro 12, 2026
Preciso de silêncio.
Tento lavrar o silêncio nas paisagens que os meus olhos recolhem, todos os dias.
São paisagens tristes, cheias de vazios que perderam o sentido. São lugares do mundo que, às vezes, moram em casas onde vive o medo, a violência, a angustia, o desencanto.
Procuro-o no azul-azul do mar que me sossega, quando a tarde cal e a noite ainda não vem; procuro-o nas igrejas vazias que se abrem à sombra dos dias de vero; procuro-o nos versos dos poetas que falam da minha inquietação; procuro-o nas fronteiras dos dias, quando me benzo e me entrego a Quem é dono do (meu) Tempo. Procuro-o nas pinturas que contemplo e me falam de esperança. Procuro-o em mim, nos momentos em que me permito parar para acolher a vida
Sempre que o perco, perco-me também.
Sempre que o encontro, planto-o de novo. Sei que ele me ajudará a curar as cicatrizes da terra rasgada de seca; sei que ele me ajudara a enfrentar o horizonte que não domino e o futuro que não conheço. Sei que ele será meu companheiro de ruido, daquele que me quer embriagar de medo e de desencanto. Sei que ele me ensinara a comover-me, a soletrar, outra vez, as palavras do tempo da inocência: mãe, mão, pai, pão.
E fixo, atenta, o desaguar da luz, para me obrigar a guardá-la dentro do peito. Preciso dela nas horas basálticas das indecisões. Preciso da luz que o silêncio me traz, como se o silêncio fosse a fonte do poema ou o traço primeiro do pintor. Preciso dela para acender a escuridão das noites subterrâneas que fazem tremer as paisagens dos nossos olhos.
Preciso de silêncio.
Precisamos todos da luz que o silêncio traz
quarta-feira, janeiro 07, 2026
E o coração está seco.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.