O acto simples de estender a mão na luz e tocar-te
irá coincidir com os meus dedos a transformarem-se
em cores, nuvens de pó lançadas no ar. Esse será o
primeiro efeito da magia. Chamar-lhe-emos magia
por causa das crianças, mas saberemos que, em rigor,
será apenas uma ilusão. Talvez seja nesse instante
que os lábios começarão a fazer o playback de todo
o silêncio, como um beijo antigo, gravado noutro
disco. O efeito secundário dessa fotografia, desse
postal, desse pôr-do-sol, será um bombardeamento
de planos para o futuro, filhos em projecto, iremos
escolher mil nomes para menino, mil nomes para
menina, iremos perder tempo a pensar nos nomes
que daríamos se fôssemos ingleses, americanos, e
falássemos em inglês, americano, como as pessoas
felizes e garridas dos filmes de domingo à tarde
no primeiro canal, ou franceses e chatos, como as
pessoas tristes dos filmes de segunda-feira à noite
no segundo canal. O primeiro efeito desse instante
será um ardor à volta dos lábios ou a repetição da
guerra do Vietname, da mesma maneira que um
ciclone na China faz uma borboleta bater as asas
e pousar-me involuntária entre os olhos, asas como
óculos de cor, nuvens de pó lançadas no ar, ou
como esperança apregoada nas ruas por multidões
indecisas, confusas, incertas, frágeis, feitas de
homens humanos, mulheres humanas e crianças-
-crianças, futuros homens e futuras mulheres,
prontos a repetirem todas as nossas dúvidas e todas
as vezes que olhámos o horizonte. E talvez o seu
melhor momento seja um espelho estragado, um
penteado definitivo ou a constatação humilde
de não serem mágicos, mas ilusionistas, donos
de um espectáculo honesto, como nós agora
a sermos o efeito principal e secundário de tudo
o que chega a nós, de tudo o que parte de nós,
de tudo o que nos ignora, nos transcende e nos
lança pela eternidade a partir do instante simples
em que estendo a mão na luz e, simples, te toco.
Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
quarta-feira, abril 21, 2010
Já fui...
Já fui amante
Do teu poema
E viajante
No pensamento
Sou navegante
Mas vale a pena
Ser eu cantante
Do próprio vento.
Do teu poema
E viajante
No pensamento
Sou navegante
Mas vale a pena
Ser eu cantante
Do próprio vento.
Sei de um rio
Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando
Pedro Homem de Melo – Alain Oulman
in Sempre de Mim, 2008
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando
Pedro Homem de Melo – Alain Oulman
in Sempre de Mim, 2008
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