quarta-feira, setembro 01, 2010

Os Livros

em cada página, o teu olhar, em cada montanha,

a tua voz, deixa-me falar contigo. lembro-me

tão bem de tudo o que me disseste.



as palavras existem. eu quero encontrar-te

sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis

desarrumados onde desarrumo a nossa vida.



em cada página, os campos, em cada montanha,

tu a chamares-me, as páginas são, outra vez,

o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.



passam anos sobre as palavras. os dias existem.

seguro os livros como se segurasse a tua voz

e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.



In, “A Casa, a Escuridão”



um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.



e a luz compreenderá a impossível compreensão o amor.

um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for

tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada

de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da

nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso

será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi

nem uma palavra, nem o principio de uma palavra, para não estragar

a perfeição da felicidade.



In, “A Criança em Ruínas”

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