Não dizes nada.
Chove muito. O frio começa a apertar. Nada.
Fui ao País Basco. Come-se bem por lá. Bebe-se também. Não dizes nada.
Parei outra vez em escala na tua cidade emprestada. Comi pastéis de Belém, e de bacalhau, com queijo da serra. Uma aberração. Não dizes nada.
O Benfas perdeu. Não dizes nada.
Vendi o carro. Comprei carro. Não dizes nada.
O Costa perdeu. Não dizes nada.
Ganhei mais uns quilos. Não dizes nada.
Afinal o Costa ganhou. Não dizes nada.
Comunas ao poder! Não dizes nada?
Desertei por 7 dias por entre o Leste da Europa. Não dizes nada.
O Benfas voltou a perder (é muito!!!). Nada dizes.
Que é feito de ti? Não dizes nada!
Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
terça-feira, outubro 27, 2015
segunda-feira, outubro 26, 2015
Começo.
Vejo-te um pouco como se já não houvesse
uma casa para nós. As grandes perguntas estão aí
por todo o lado, onde quer que se respire, dentro
dos próprios frutos. É o começo da noite
e os cinzeiros já estão cheios de meias palavras:
porque escolhemos tão pouco
aquilo que nos pertence?
Vejo-te de olhos fechados enquanto me confiavas
a tua história - à mesa da cozinha, quase um espelho,
quase uma razão. as minhas canções preferidas
pareciam convergir para ti a certa altura, dir-se-ia
que te vestias com elas. E no entanto
como se apressaram as grandes florestas a invadir
as gavetas, como misturaram as raízes
no eco que fazia o teu desejo contra mim.
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in A Super-Realidade.,
Rui Pires Cabral
sexta-feira, outubro 23, 2015
Escuta, Amor.
Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.
quinta-feira, outubro 22, 2015
Hoje tenho pena.
sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo
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Al Berto in,
Três Cartas da Memória das Índias
quarta-feira, outubro 21, 2015
Violência.
(...)
Nisto,
refaço-me de altíssimas quedas
com um esgar que me mantém refém
do vício,
desta violência de trazer o teu nome nos lábios,
como um sorriso em que me desfaço. (...)
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in onde não estou,
Marta Chaves,
tu não existes
terça-feira, outubro 20, 2015
Esperei, ainda te espero.
prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me, e os olhos pousarão nos teus olhos este frémito de águas. acredito nas ruas que existem por detrás dos óculos dos marinheiros, onde descansa um barco e tu foges. não acredito em ti. um fio de água enforca-nos. foi então que resolveste prosseguir viagem sozinho, com a tua adolescência um pouco ferida,. eu acreditei no fogo e no silêncio que, de manhã, lavam os corpos, tornando-os de novo navegáveis. esperei, ainda te espero. ando por aí a mariscar, com os nativos, escondendo do mundo a tristeza que me devora o corpo.
segunda-feira, outubro 19, 2015
Solidão. Sempre.
E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.
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in 'Uma Casa na Escuridão,
José Luís Peixoto
segunda-feira, outubro 12, 2015
domingo, outubro 11, 2015
Hipocondríaco. Da alma.
Tinhosa,
Sabes que preciso sempre de te contar algo. Mesmo quando não tenho nada de relevante para te dizer.
Estou num daqueles locais que jamais imaginei vir parar, principalmente quando o resto do mundo está em grande azáfama porque o ano lectivo começou.
Mas também te escrevo para te contar o quão doloroso têm sido estes dias.
Acho que não iria conseguir ficar muito mais tempo sem partilhar esta dor contigo.
Sofro de quase tudo. Sou hipocondríaco da alma, quando fico tanto tempo sem notícias tuas.
Estou longe. Não, não estou longe de ti. Por mais que me esforce, não consigo. Acho que esta dor da ausência chega a ser física. Sim. Como uma fome de ti. Uma "roeza " no estômago que me faz devorar o resto da comida que me aparece à frente...e me inchou 10kg... no mínimo.
Dever ser por isso que estou num workshop internacional de gastronomia. A fome de ti, obriga-me a ser o mais distinto e apurado... para te saborear melhor na memória.
Tento afastar-me dos lugares comuns, mas a alma não tem país nem continente para onde possa fugir.
É certo que estes intercâmbios são muito interessantes, quer do ponto de vista social como cultural, mas ao mesmo tempo fazem-me acordar para o Tempo.
O tempo em que os deveria ter realizado, a idade e a energia que teria, o quanto poderia ter contribuído e vivido.
Também o Tempo em que te degustei.
Não sei se o devia ter congelado. Ou consumido fresco como esse sorriso melado.
Sei hoje que não deveria ter tido tanto medo do teu sabor. Da tua presença forte. Dos aromas mesclados no teu corpo do qual nem sempre soube tirar o melhor sabor.
sexta-feira, outubro 02, 2015
Aqui.
Chega mais um fim de semana.
Desta vez mais calmo que os últimos em sobressalto e cansaço físico.
Vou ficar.
Quieto.
Mas com o coração aflito.
Aguardando por um sinal teu.
Aqui.
"Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo."
Desta vez mais calmo que os últimos em sobressalto e cansaço físico.
Vou ficar.
Quieto.
Mas com o coração aflito.
Aguardando por um sinal teu.
Aqui.
"Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo."
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2005,
A paixão e prisão de Egon Schiele,
Vasco Gato
quinta-feira, outubro 01, 2015
Não devia.
Nem devia ser assim.
Não sei porque perco tanto tempo neste estado de latência enquanto as horas passam e a chuva finalmente cai.
Não consigo prender os pensamentos em nada construtivo senão em memórias e fantasias que confundo constantemente. Apenas em comum, tu.
Hoje, carregado de saudade e esperança de uma simples resposta tua, o dia adivinha-se difícil.
Beijo Tinhosa.
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