domingo, outubro 11, 2015

Hipocondríaco. Da alma.

Tinhosa, 

Sabes que preciso sempre de te contar algo. Mesmo quando não tenho nada de relevante para te dizer.
Estou num daqueles locais que jamais imaginei vir parar, principalmente quando o resto do mundo está em grande azáfama porque o ano lectivo começou.
Mas também te escrevo para te contar o quão doloroso têm sido estes dias.
Acho que não iria conseguir ficar muito mais tempo sem partilhar esta dor contigo.
Sofro de quase tudo. Sou hipocondríaco da alma, quando fico tanto tempo sem notícias tuas.

Estou longe. Não, não estou longe de ti. Por mais que me esforce, não consigo. Acho que esta dor da ausência chega a ser física. Sim. Como uma fome de ti. Uma "roeza " no estômago que me faz devorar o resto da comida que me aparece à frente...e me inchou 10kg... no mínimo.

Dever ser por isso que estou num workshop internacional de gastronomia. A fome de ti, obriga-me a ser o mais distinto e apurado... para te saborear melhor na memória.
Tento afastar-me dos lugares comuns, mas a alma não tem país nem continente para onde possa fugir.
É certo que estes intercâmbios são muito interessantes, quer do ponto de vista social como cultural, mas ao mesmo tempo fazem-me acordar para o Tempo.

O tempo em que os deveria ter realizado, a idade e a energia que teria, o quanto poderia ter contribuído e vivido.

Também o Tempo em que te degustei.
Não sei se o devia ter congelado. Ou consumido fresco como esse sorriso melado.
Sei hoje que não deveria ter tido tanto medo do teu sabor. Da tua presença forte. Dos aromas mesclados no teu corpo do qual nem sempre soube tirar o melhor sabor.

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