terça-feira, novembro 17, 2015

Ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo.

"Esperar por ti não é esperar por ti

esperar por ti é ter talvez esperança

ou é esperar com minudenciosa paciência

e desenhar teu rosto em cada rosto que vejo surgir

na minha alvoroçada vizinhança dos teus passos

Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo

é tudo serem para mim estradas largas

estradas onde passa o sol poente

é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar

se o tempo existe existiu alguma vez

e nem mesmo meço a devastação do meu passado

Quando te vejo e embora exista o vento

nenhuma folha nas múltiplas árvores se move

ver-te é logo todas as coisas começarem é

tudo ser desde sempre anterior a tudo

Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto

sentir no meu andar alguma segurança mínima

caminhar pelo ar a meio metro da terra

e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo de que o ar

ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te

ver-te é sentir pousar mais que um olhar

uma mão muito calma sobre a minha vida

ver o teu rosto é ter toda a certeza de que existo

que sempre existirei que não há mais ninguém

ver o teu rosto é mesmo mais do que nascer

empreender viagens começadas nesse rosto

donde podem sair inúmeros navios

ver o teu rosto é como tudo começar

corrida a minudenciosa prega do silêncio

silêncio alto como um cerro inesperado como um curro

aéreo como um cirro denso como um cerro

prosaico às vezes como a mecânica de um carro

Vejo-te e povoas só de folhas que depois desfolhas

os rasos descampados que te cercam por todos os lados

Caminho ao teu encontro

a juventude é como uma oportunidade

começa a ser outono a tarde é território para a luz

tem certas listas como um fato cinzento

toco-te apenas para ver se estás aí

um país se arredonda à tua volta

sinto todas as coisas no lugar

Quando te vais embora fico de repente ao abandono

sem ao menos a protecção de uns olhos de animal

da copa arredondada de uma árvore

Vais-te embora e deixa de haver árvores no mundo

e não tenho palavras e não tenho voz

não conheço ninguém nenhum ouvido

que se possa ajustar à forma do meu grito

E desço da liteira como quem desce da vida

como que me separo de mim mesmo

sinto-me inexplicável e na rua

para sempre irremediavelmente na rua.

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