Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
quarta-feira, novembro 08, 2017
quinta-feira, março 02, 2017
quinta-feira, fevereiro 16, 2017
sábado, fevereiro 11, 2017
quarta-feira, fevereiro 08, 2017
terça-feira, fevereiro 07, 2017
quarta-feira, fevereiro 01, 2017
O meu primeiro amor
Acordava a pensar em ti com a fotografia que uma amiga tua me havia cedido depois de duras negociações. Debaixo da almofada e guardada na página 77 de um livro que acabei por nunca ler. Só para que não se estragasse.
E acordava bem antes do despertador tocar na ânsia de te ver e novamente depois do primeiro intervalo. Logo eu que adorava (e ainda adoro...) dormir! Mas para te ver tudo era diferente! Atrasava-me para a primeira aula para te mirar lá do fundo a entrares para a tua sala na esperança que ninguém me visse dada a minha timidez.
Engendrava esquemas altamente elaborados para nos cruzarmos um com o outro o máximo de vezes possível até jogos de futebol com os teus colegas para que te visse nas bancadas com as tuas amigas. Na fila de almoço ficava a contar o tempo para que “por coincidência” ficássemos perto um do outro e com o coração bem apertado e nas mãos do meu melhor amigo lá seguia o primeiro bilhete depois de mil rascunhos e rabiscos num tom amigavelmente provocador que sempre me caracterizou.
Éramos felizes assim, entre elogios e combinações temendo que as férias de Verão chegassem e pudessem romper com este amor eterno. Demos a mão para aí à sexta vez, lá ao fundo depois do campo da bola, e o primeiro beijo na boca depois de uma festa que organizei só para que pudesses ir pela primeira vez a uma discoteca. Eras a mais gira de todas, disso não tinhas dúvidas, e eu o mais sortudo do liceu. Nas nossas combinações ousadas a jogar o Bate Pé e mais tarde o Verdade ou Consequência todos percebiam que estávamos a jogar um para o outro e que mais nada interessava. Nada nem ninguém, nem a Claudia Schiffer se aparecesse naquele momento me faria desviar o olhar de ti.
Mesmo com frio muitas vezes aparecias de top curto só para que as outras vissem que te emprestava o casaco, dedicávamos músicas e letras um ao outro como se elas nos pertencessem e as tivéssemos escritos um para o outro. Passava horas no regresso a casa à procura de um defeito teu mas era impossível porque eu tinha encontrado a perfeição e só de pensar que um dia te poderia perder, que nos poderíamos afastar, dava-me uma dor tão, mas tão forte no peito que eu garantia à minha mãe ter estado próximo de um ataque cardíaco.
Foste comigo nos meus sonhos a países, ilhas e planetas que percebi anos mais tarde nunca terem existido, mas concebia-os com tanta convicção com tanto carinho e pureza que tenho a certeza se eles fossem verdadeiros o mundo seria bem melhor. Fomos muito felizes ali, mas também o era em qualquer coisa que tivesse a ver contigo. Tipo “Lagoa Azul”.
Mostraste-me o que é gostar de alguém, a simplicidade dos afetos, a impetuosidade dos sentimentos mais genuínos, a leveza do que vem de dentro e nos baralha, nos confunde e nos emociona. Momentos perfeitos podem ser segundos. Naquela altura tudo era um sorriso , foi quando nasceram pela primeira vez as borboletas no meu estômago…!
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01/04/2016 José Paulo do Carmo,
Jornal i
quinta-feira, janeiro 26, 2017
Ser amado com amor
Amar é achar que tivemos sorte e que não merecemos sermos amados por quem amamos.
Amar é perceber, pensar ou descobrir que toda a nossa satisfação, alegria e paz dependem do parecer amoroso — ou não — de uma única pessoa, que amamos quanto vivemos e faz de cada um de nós quem é.
Ser amada ou amado é quase sempre independente de cada uma das nossas vontades.
Amar é achar que tivemos sorte e que não merecemos sermos amados por quem amamos.
O amor não é um ponto de contacto. É uma discrepância que se anuncia. É uma barreira contra o entendimento.
Amar é coisa de uma só pessoa. Há pessoas que precisam de ser amadas que são incapazes de serem amadas. Mas também há pessoas que facilmente se amam (e que se deixam ou não amar) mas que são incapazes de amar.
O amor é uma condição. Não é uma escolha. É o contrário de um destino. É um destino multiplicado por mil. Confunde-se com a nossa natureza. Confunde-se com a nossa existência. Confunde-nos e vence-nos porque amar, mesmo com um mínimo gigantesco de amor, facilmente se torna na maior — e mais linda — das nossas mais sinceras e menos ditadoras obrigações.
Amar é prescindir de quem somos, na esperança estupidamente optimista que o pouco que nos resta, depois de tão desnecessário e cruel exercício, seja, talvez atraente, conforme uma avaliação sado-masoquista que, de modo nenhum, corresponde à realidade.
Amar é pertencer a quem se ama, pelo amor que se tem a essa pessoa. Querer ser amado, tal como ser amado, pertence ao mundo do que não só não se sonha — como não existe.
Mas existe.
segunda-feira, janeiro 23, 2017
sexta-feira, janeiro 06, 2017
O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
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