As memórias são facturas em teu nome sei que o adeus tem os seus rituais e o teu é deixar-me vazia a despensa dos sonhos às vezes pergunto o que fizemos mal vou enviar-te flores todos os outonos podes vir pelas facturas pelo menos as da luz estou às escuras por causa dos teus rituais
Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
segunda-feira, outubro 24, 2022
quarta-feira, outubro 19, 2022
A RESPOSTA É SEMPRE NÃO
terça-feira, outubro 18, 2022
Força de hábito ou fascínio do abismo.
Os becos do meu inferno vão quase todos dar ao largo da
fantasia, e de lá, tortuosos e íngremes, descem para o cais da desilusão. Num
vaivém de correrias, tropeçando, empurrando, fazendo um burburinho de
ensurdecer, agita-se neles o povo das recordações, esgueiram-se os muitos eus
que criei para existir e que depois, para sobreviver, tive de ir descartando.
Por vezes com a indiferença de quem abandona um disfarce inútil, outras com
pressas de malfeitor.
Nas paredes, cintilando coloridos, multiplicam-se os ecrãs
onde revivem os lugares e os rostos, dores minhas, dores alheias. Os momentos
que pareceram felizes e que o passar do tempo recobriu de incerteza e dúvida.
Horas de suplício. Horas de morte. Angústias de ontem, medos da infância,
vergonhas da mocidade, tudo se emaranha em simultâneo, o passado indistinto do
presente e do futuro, porque a tortura não conhece limites, e assim se nos
impõe, omnipotente.
As ondas da mesquinhez do dia-a-dia embatem contra a muralha
do cais, iluminadas às vezes pela claridade fugaz de uma esperança, enquanto no
céu opaco ecoam trovões longínquos. Menos temerosos, esses, do que a ameaça da
espessa névoa que de súbito tudo pode afogar: os sonhos, o marulho dos
pensamentos, as réstias de luz.
Para escapar à iminência do martírio, fecho a porta atrás de
mim, saio para o mundo envolto nas aparências do que não sou. E contudo, força
de hábito ou fascínio do abismo, é para o negrume dos becos do meu inferno que
infalivelmente retorno. Umas quantas vezes ao dia. Todas as noites. Sem que me
lembre excepção.
sexta-feira, outubro 14, 2022
Não quero mais sofrer.
"Partilho contigo um livro, que me entregaste e revejo-me nele em cada palavra! Sob a minha interpretação, escolhi estas palavras, em tom de despedida, porque considero que o Pedro Paixão, melhor do que eu, conseguirá expressar o sentimento que me domina...
'""Olhar para a frente sem saber o que vai ser de nós. Olhar para trás sem nada poder reviver, corrigir, emendar sequer. Não conseguir fixar o presente bem ou mau, tanto faz, o presente não será mais.'""
R, não me interpretes mal! Antecipo a despedida, aquela que tentava em existir! Não quero saber mais nada! Não quero viver na dúvida! Não quero mais sofrer...
O tempo encarregar-se-á de responder às minhas interrogações... E viveremos no silêncio das palavras e na cobardia das atitudes!
Um abraço forte e um beijo terno de adeus!"
quinta-feira, outubro 13, 2022
Para onde vai o amor?
https://www.youtube.com/watch?v=u1sFvNM8ygw
Quem me diz
Para onde vão os guarda-chuvas?
Os isqueiros, as infâncias, os talões?
Quem me diz
Para onde vão os nossos planos?
As ideias, os desejos, as ilusões?
Que universo paralelo
Que esconderijo, que alçapão,
Que fada transformou em nada,
Onde é que as coisas vão?
Para onde vai o amor
Quando se acaba
Para onde vai o amor
Se nunca acaba
Para onde vão todos os guarda-chuvas e os amores que eu já perdi?
Amores e guarda-chuvas
Amores e guarda-chuvas
Quem me diz?
Para onde foi a outra luva?
As moedas mais miúdas, as paixões?
Quem me diz
Será que no fim das coisas todas
Há um eterno nada, uma outra dimensão
Um universo paralelo
Um labirinto, um alçapão
Onde tudo enfim é o nada
Onde as coisas vão?
Para onde vai a dor
Que nunca cede
Para onde vai o amor
Quando se perde
Para onde vão todos os guarda-chuvas e os amores que eu já perdi?
