terça-feira, abril 11, 2023

Como se o corpo perdesse a memória.

 Os primeiros beijos

 ingénuos, comedidos, cautelosos,

 os corpos indecentemente jovens, 

desastrados como caranguejos, 

a cozinha suja, o pequeno-almoço na cama, 

cigarros, cerveja, pão turco e tulipas turcas. 


 Passaram mil madrugadas, 

o amor jaz na ausência, 

como se o coração perdesse a paciência, 

como se o corpo perdesse a memória, 

as flores secas, as folhas secas, as raízes secas,

  devolveu-me ao mar como se fosse um peixe, 

um peixe ferido, um peixe incapaz de sobreviver, 

pequenos homicídios sem consequências. 


 Sobrevivi, 

sei que me desmereço mas não sou o que pareço, 

agora sou toda janelas, 

da torre a sentinela, do sino a capela, da rua a cadela, 

sou o morro mais alto da favela, 

ainda quero entender o mundo, 

ainda quero conhecer o fundo,

 quero com desespero, 

quero mas não sei o que quero, 

mais feitio que defeito, 

mais feito que derrota, 

mais gaivota que proveito,

 mais ignota que perfeito,

 mais pé-direito que respeito, 

e podem chamar-me pedante,

 mas as pessoas que sabem o que querem 

nunca querem nada de interessante



Sem comentários: