sexta-feira, setembro 22, 2023

O pão da minha fome.

 De ti só quero o cheiro dos lilases

e a sedução das coisas que não dizes

De ti só quero os gestos que não fazes

e a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço

quando não digo os versos que compus

De ti só quero a veia do pescoço

vampira que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas

que há nos teus olhos cor das ventanias

De ti só quero um sopro nas janelas

da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome

e um gosto que não sei de mar e mel

De ti só quero o pão da minha fome

mendiga que já sou da tua pele.


quarta-feira, setembro 20, 2023

E eu sei que nunca mais saltarei.

Sei que nunca mais encontrarei coisa nenhuma nem ninguém que me inspire paixão.

Sabes?

Pôr-se uma pessoa a amar alguém não é tarefa fácil.

É preciso ter uma energia, uma generosidade ...

É preciso uma cegueira ...

Há até um momento, logo no princípio, em que se tem de saltar por cima de um precipício; quem reflete não salta.

E eu sei que nunca mais saltarei.

terça-feira, setembro 19, 2023

Chega a noite vazia de sentidos.

 Certas mulheres são pequeninas aves. Parecem ter feito

para sempre ninho num beiral ou na copa farta de árvores

de folha perene. Leves como o ar, atam-se às suas origens

para não partirem. Se se ausentam, é quando estão certas

de terem instruído as crias a voar sozinhas. Olham sempre

para trás. Em voos cada vez mais longos. Amiúde voltam

como se não se tivessem ausentado. A um canto quente

do ninho, acariciam a plumagem como se lambessem

feridas. Quando pensam estar sós, levantam uma das asas

e adormecem ali como se fossem embalo. Noite. Nunca

se sabe se voltam a partir. Não há estrelas que anunciem,

mas os luares convidam as aves tristes para irem ao seu

encontro. Numa manhã qualquer, pequenos pássaros dão

pela sua falta. Agitam-se e emitem murmúrios como nunca.

Os rumores da ausência. Quem dera que quem parte

os tivesse escutado antes. São mulheres aladas

que não voltam, para quem a presença se retirara há muito.

Chega a noite vazia de sentidos.

sexta-feira, setembro 15, 2023

This is what I miss…

This is what I miss… not something that’s gone, but something that will never happen.

quinta-feira, setembro 14, 2023

Bolso.

Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas.

Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo.

Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança... 


quarta-feira, setembro 13, 2023

O meu nome é o teu olhar.

Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,

essas palavras que não ficam arrumadas com decência

na literatura,

palavras de amantes sem amor, gente que sofre

e a quem falta o ar quando faltam as palavras.

Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo

como se tivesse nascido o dia e uma brisa

encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir

para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.

Quando volto para casa o teu nome vai comigo

e ao mesmo tempo espera-me já

numa casa construída com dois nomes,

como se tivesse duas frentes,

uma para a montanha e outra para o mar.

Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,

espreito então pelas janelas de onde

se vêem coisas que nunca antes tinha visto,

coisas que adivinhava mas que não sabia,

coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.

Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,

e os meus olhos são justamente a pronúncia do

teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,

um som pequeno como um roçagar de asas

dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala

e criam raízes fundas nas palavras vulgares

que os vulgares amantes engrandecem

quando falam de amor.

terça-feira, setembro 12, 2023

Habituar-me.

 Preciso habituar-me

a substituir-te

pelo vento,

que está em qualquer parte

e cuja direção

é igualmente passageira

e verídica. 


segunda-feira, setembro 11, 2023

Vertigens. Só queriam saber das vertigens.

"(...) Os lábios dele tocaram de leve nos lábios dela, como o pouso de mil borboletas brancas. Tomaram uma distância miúda, quase invisível, e se encostaram de novo, um vai e vem sereno embalou os dois aumentando aos poucos a vontade de demorar ali. As línguas se tocaram macias, se afastaram tímidas, se entregaram a uma brincadeira de dançar juntas, exploraram o desenho da boca, tocaram nos dentes perolados, venceram todas as distâncias, reconheceram texturas, tomaram gosto. Um molhando o outro com suas águas boas, um dentro do outro naquele primeiro beijo de parar o mundo. Os olhos fechados num escuro quente. As mãos tocando os cabelos desalinhados, agradando as faces avermelhadas pelo calor de dentro. É para coisas assim que nascemos. Quem para o tempo nesse sentir sai diferente. Muda. Conhece a força de existir. E depois do primeiro beijo, vieram outros. O corpo querendo chegar mais perto, se perder nos abraços. A mão encontrando a pele, conhecendo os relevos. As matas. As grutas. Um rio largo e farto, manso em seu fluxo, lavando tudo, fertilizando os dias, umedecendo o árido, enfrentando as quedas, as curvas, as tempestades. Confiante de um dia ser mar. O amor, quando nasce forte, tem pressa de ser eterno. Nem se dá conta de que é carne úmida. Os dois foram vivendo aquele desejo despreparado de limites, cada vez mais esquecidos das regras, dos outros, das satisfações exigidas. Só queriam saber das vertigens (...)."

quinta-feira, setembro 07, 2023

Fica mais um pouco!


"Como sair daqui?" Perguntas bem, amigo.

Diógenes diria "à catanada, vivamente",

Lichtenberg "à gargalhada", se o conheço.

Thomas Bernhard proporia "num rectângulo

de tábuas" e Machado que o caminho de saída

se descobre ao caminhar. Beckett é provável

que dissesse "rastejando".

Diderot aventaria

"pela rua do liceu", Tcheckov "pela viela

mais escura, à tua esquerda". Séneca diria,

muito sonso, "pelo passeio das Virtudes",

Vaneigem "pelo jardim das Belas-Artes".

Bashô responderia (e eu com ele) "é muito cedo,

fica mais um pouco, ainda há vinho na garrafa".

terça-feira, setembro 05, 2023

Cedo ao rastro.

 Cedo ao rastro de restos que

me tenta até ti

(pernas de nylon vazias

sapatos

desafogados)

segunda-feira, setembro 04, 2023

Desde sempre em mim.

Contente. Contente do instante 

Da ressurreição, das insônias heroicas 

Contente da assombrada canção 

Que no meu peito agora se entrelaça. 

Sabes? O fogo iluminou a casa. 

E sobre a claridade do capim 

Um expandir-se de asa, um trinado 


Uma garganta aguda, vitoriosa. 


Desde sempre em mim. Desde 

Sempre estiveste. Nas arcadas do tempo 

Nas ermas biografias, neste adro solar 

No meu mudo momento 


Desde sempre, amor, redescoberto em mim.