terça-feira, setembro 19, 2023

Chega a noite vazia de sentidos.

 Certas mulheres são pequeninas aves. Parecem ter feito

para sempre ninho num beiral ou na copa farta de árvores

de folha perene. Leves como o ar, atam-se às suas origens

para não partirem. Se se ausentam, é quando estão certas

de terem instruído as crias a voar sozinhas. Olham sempre

para trás. Em voos cada vez mais longos. Amiúde voltam

como se não se tivessem ausentado. A um canto quente

do ninho, acariciam a plumagem como se lambessem

feridas. Quando pensam estar sós, levantam uma das asas

e adormecem ali como se fossem embalo. Noite. Nunca

se sabe se voltam a partir. Não há estrelas que anunciem,

mas os luares convidam as aves tristes para irem ao seu

encontro. Numa manhã qualquer, pequenos pássaros dão

pela sua falta. Agitam-se e emitem murmúrios como nunca.

Os rumores da ausência. Quem dera que quem parte

os tivesse escutado antes. São mulheres aladas

que não voltam, para quem a presença se retirara há muito.

Chega a noite vazia de sentidos.

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