Certas mulheres são pequeninas aves. Parecem ter feito
para sempre ninho num beiral ou na copa farta de árvores
de folha perene. Leves como o ar, atam-se às suas origens
para não partirem. Se se ausentam, é quando estão certas
de terem instruído as crias a voar sozinhas. Olham sempre
para trás. Em voos cada vez mais longos. Amiúde voltam
como se não se tivessem ausentado. A um canto quente
do ninho, acariciam a plumagem como se lambessem
feridas. Quando pensam estar sós, levantam uma das asas
e adormecem ali como se fossem embalo. Noite. Nunca
se sabe se voltam a partir. Não há estrelas que anunciem,
mas os luares convidam as aves tristes para irem ao seu
encontro. Numa manhã qualquer, pequenos pássaros dão
pela sua falta. Agitam-se e emitem murmúrios como nunca.
Os rumores da ausência. Quem dera que quem parte
os tivesse escutado antes. São mulheres aladas
que não voltam, para quem a presença se retirara há muito.
Chega a noite vazia de sentidos.
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