terça-feira, novembro 14, 2023

Era isto o depois.

 E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.

Era disto que falavam as mães quando davam conselhos

ás filhas e diziam: o amor vem depois. Era isto o depois.

Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,

todas as horas do dia e um poema que se dissolve dentro

de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.





quinta-feira, novembro 09, 2023

és meu quando.

 Direi do amor não tudo, mas o quando

- O amor só sei dizer o amor

sentindo

Direi mesmo sabendo repetindo

- O amor se vai no dito

renovando


Eu sinto quando amor se perco o mundo

Se tudo o que eu disser, dizer sorrindo

O amor se dá somando e dividindo

Na sensação de estar multiplicando


O amor é quando o quando é desse jeito

Não há saber da causa só do efeito

Não tendo, desse efeito, seu comando


Te amo em bando - tantos que me sinto

Em menos, não consigo ou me consinto

Pois todos tu resumes: és meu quando.

segunda-feira, novembro 06, 2023

Quando te vi antes do mar.


Este fim de semana parei aqui.

Na foz. 

Onde o rio se perde.

Quando te vi antes do mar.

Quando os teus olhos me guiavam pelos caminhos do teu abraço.

Quando éramos felizes. 

Tão felizes. 

E descontraídos. 

O amor em latência, 

presente na luz do nosso caminho.


sexta-feira, novembro 03, 2023

Quem tem saudades.

 SAUDADES DE CAMÉLIAS

 “Então o que vai ser hoje, menina?”
 Ela sorri, só no mercado é que ela ainda é menina, enquanto a rapariga vai gabando as virtudes da mercadoria, “as rosas nem estão muito caras, e se a menina lhes deitar o pó desta saqueta duram muito mais. E temos umas cravinas lindas…” 
De repente ela pergunta: “Não tem camélias?” 
A rapariga olha para ela espantada: “Camélias, menina? É muito raro haver agora camélias, acho que nem deve ser o tempo delas, e mesmo que fosse, hoje já ninguém compra camélias, a menina sabe como é, há modas para tudo, e hoje o que as pessoas querem é ramos assim muito bem armados, há floristas que até põem uns ananases no meio do arranjo, e umas joaninhas de plástico, eu por acaso nunca ponho, e a menina por que não leva estas cravinas?” 
Ela nem ouve a rapariga, ela está muito longe, daqui a momentos vai encontrar-se com o homem que amou desvairadamente aos 20 anos e que já não vê há mais de trinta, e que por acaso encontrou num café ao lado de casa e com quem combinou um almoço, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“O meu primeiro namorado dava-me sempre camélias no dia dos meus anos..”, murmura, “eu tinha sempre muito medo que a minha mãe visse, e enfiava-as dentro da pasta do liceu… E elas aguentavam…” A rapariga não parece comover-se com histórias românticas, faz-lhe o ramo das cravinas, recebe o dinheiro, dá-lhe o troco. Mas à laia de consolação sempre lhe vai dizendo que às vezes, de quando em quando, lá vão aparecendo, “ se a senhora quiser, eu aviso quando receber camélias e guardo-as para si. 
A senhora pode ficar descansada.” Ela sorri porque, de um momento para o outro, deixou de ser “menina.” O que se compreende: quem tem saudades de “flores tão antigas”, neste mundo de coisas estranhamente modernas, como ananases e joaninhas de plástico em ramos de flores, não merece outra coisa. 

quinta-feira, novembro 02, 2023

Às vezes Novembro



Às vezes Novembro era mais frio

que todos os meses

e uma sombra grotesca

amarfanhava-me os olhos.

Presas ao meu corpo arrastavam-se

sombras e pombos mortos,

coisas que mais ninguém

gostava de ver.

Às vezes Novembro

era um mês surdo,

e eu fechando os olhos

não ouvia o silêncio,

apenas o rugido trémulo

de uma trovoada cuja chuva

nunca vinha para amenizar-me

o sono e eu não

dormia nunca,

perorava vigil em

sobressalto pelos trovões.