sexta-feira, novembro 03, 2023

Quem tem saudades.

 SAUDADES DE CAMÉLIAS

 “Então o que vai ser hoje, menina?”
 Ela sorri, só no mercado é que ela ainda é menina, enquanto a rapariga vai gabando as virtudes da mercadoria, “as rosas nem estão muito caras, e se a menina lhes deitar o pó desta saqueta duram muito mais. E temos umas cravinas lindas…” 
De repente ela pergunta: “Não tem camélias?” 
A rapariga olha para ela espantada: “Camélias, menina? É muito raro haver agora camélias, acho que nem deve ser o tempo delas, e mesmo que fosse, hoje já ninguém compra camélias, a menina sabe como é, há modas para tudo, e hoje o que as pessoas querem é ramos assim muito bem armados, há floristas que até põem uns ananases no meio do arranjo, e umas joaninhas de plástico, eu por acaso nunca ponho, e a menina por que não leva estas cravinas?” 
Ela nem ouve a rapariga, ela está muito longe, daqui a momentos vai encontrar-se com o homem que amou desvairadamente aos 20 anos e que já não vê há mais de trinta, e que por acaso encontrou num café ao lado de casa e com quem combinou um almoço, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
“O meu primeiro namorado dava-me sempre camélias no dia dos meus anos..”, murmura, “eu tinha sempre muito medo que a minha mãe visse, e enfiava-as dentro da pasta do liceu… E elas aguentavam…” A rapariga não parece comover-se com histórias românticas, faz-lhe o ramo das cravinas, recebe o dinheiro, dá-lhe o troco. Mas à laia de consolação sempre lhe vai dizendo que às vezes, de quando em quando, lá vão aparecendo, “ se a senhora quiser, eu aviso quando receber camélias e guardo-as para si. 
A senhora pode ficar descansada.” Ela sorri porque, de um momento para o outro, deixou de ser “menina.” O que se compreende: quem tem saudades de “flores tão antigas”, neste mundo de coisas estranhamente modernas, como ananases e joaninhas de plástico em ramos de flores, não merece outra coisa. 

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