Eu digo do amor não mais que a sombra.
Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz
aos dedos que tremem só de aflorar
o que da carne é já incorruptível saber
e crispação sem causa natural.
São nossas inimigas as cortinas
amplas do verão, os fumos e vapores
que esta terra nos devolve, a fria
repercussão do espírito que treme
sobre um tão ausente e despossuído mundo.
Disse-te que voltasses devagar os teus olhos
para o mecanismo simples da erosão.
Eu parti há muito e neste quarto
apenas aguardo o relâmpago surdo do teu corpo,
a contenção muda e não menos esplendorosa
da carne recordada e pressentida.
No entanto, deixámos escurecer
excessivamente o mundo. Ele acolhe-se
a nós, com terror e evidência,
e nós, em verdade, que podemos dizer?
Eu digo do amor não mais que a sombra,
mas o teu rosto e a luz nada pode conter.
Sim, o coração, as estiradas asas
de uma frase que deixaste perder,
de um viés de silêncio. Recordas,
muito a pesar teu, a sombra que te continha
os passos naquela noite, a larga
respiração das palavras contra o corpo adormecido.
As frases surgiram, como do fundo falso de uma fábula,
e criavam ecos, reverberações do silêncio na fala
mais vulnerável e tangível. Ela dormia
contra a sua própria carne. Tu nunca falaste
do desejo: adormecia o tempo entre as pedras
e o outono. Tu falavas da meseta, do peso dos rios
(gelados no inverno e os pássaros ausentes), tu eras
simultâneo tradutor do tempo e da memória. Ela dormia,
respirava as estrelas, tu já nada tinhas
para lhe dar. Tu apenas erravas entre o coração e os rios.
Sim, o coração, as estiradas asas
de uma morte mais próxima do que todos os frios.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti?
Sabias ocultar entre os teus menores movimentos
a lembrança de um corpo e de um ardor sem música
nem esquecimento possível. Quantas cidades
atravessámos, quantos «grandes são os desertos e tudo é
deserto»,
quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,
consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias
a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,
regressa. Nós nunca acordamos conformes,
nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,
vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas
fórmulas antigas. Da nossa idade
guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.
Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos
à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos
um inquietante rosnido entre as frestas do muro.
Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los
na mesma erosão do seu mágico movimento.
Porque é tão ansiosamente que espero por ti
se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?
Tudo o que ignoras é um sabor
esquivo e indómito, acercando-se
a ti entre as brechas singulares da noite
e o esquecimento dos nomes. Quantas dores
atravessam o fio das palavras, o sentimento
agudo de um vazio entre delírio e delírio, a
esquiva velocidade do amor! O que sabemos
não está oculto no intervalo das marés
nem dorme no que eu digo do teu corpo.
Tudo o que ignoras é um sabor
suspenso dos teus lábios, ou tão-só
inquieto sentir entre a carne e o amor.
Quando começámos a saber da corrupção
das palavras no tempo, quando foi que medimos
o declínio do amor, sua gentil
degradação nos signos mais evidentes e molestos?
Face ao silêncio que nós guardamos,
hoje é a tua ausência a chamar-me
em fluente reiteração. Que orvalho
cingiu o nosso durar, que sinais mais ambíguos
poderíamos ter deixado? A música, por vezes.
Mas quase sempre era sobre a terra esse intenso ruído do
amor,
as ceifadas do desejo, as núpcias do acaso e da invenção,
e nem sob o carro do feno lográvamos encontrar repouso.
As estações rodavam e um momento calámos
de saber demais tudo o que perdíamos.
A ironia tornou-nos por demais presentes:
quando começámos a saber da corrupção
do amor nos seus indícios mais trementes?
Nenhuma coisa, digo eu, pode ser mais vulnerável
à noite e às lágrimas. Sou vulnerável a ti
como o cervo antes da caça, como a persistência
das colheitas sob o sol. Onde ardem
as mudanças das estações, onde germina o lume,
aí me disponho às estrelas, aí recolho os tributos.
Que demorado luto rege agora os nossos protocolos!
Tivemos que nos acomodar a ritos e fórmulas
despidos de qualquer consagração.
Eu recordo as cerimónias breves do verão,
o adensar do outono, a prossecução da primavera.
Quem, digo eu, pode ser mais vulnerável a ti
do que um corpo que ainda treme do esquecimento de si?
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