quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Quem, digo eu, pode ser mais vulnerável a ti?

 Eu digo do amor não mais que a sombra.

Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz

aos dedos que tremem só de aflorar

o que da carne é já incorruptível saber

e crispação sem causa natural.

São nossas inimigas as cortinas

amplas do verão, os fumos e vapores

que esta terra nos devolve, a fria

repercussão do espírito que treme

sobre um tão ausente e despossuído mundo.

Disse-te que voltasses devagar os teus olhos

para o mecanismo simples da erosão.

Eu parti há muito e neste quarto

apenas aguardo o relâmpago surdo do teu corpo,

a contenção muda e não menos esplendorosa

da carne recordada e pressentida.

No entanto, deixámos escurecer

excessivamente o mundo. Ele acolhe-se

a nós, com terror e evidência,

e nós, em verdade, que podemos dizer?

Eu digo do amor não mais que a sombra,

mas o teu rosto e a luz nada pode conter.


Sim, o coração, as estiradas asas

de uma frase que deixaste perder,

de um viés de silêncio. Recordas,

muito a pesar teu, a sombra que te continha

os passos naquela noite, a larga

respiração das palavras contra o corpo adormecido.

As frases surgiram, como do fundo falso de uma fábula,

e criavam ecos, reverberações do silêncio na fala

mais vulnerável e tangível. Ela dormia

contra a sua própria carne. Tu nunca falaste

do desejo: adormecia o tempo entre as pedras

e o outono. Tu falavas da meseta, do peso dos rios

(gelados no inverno e os pássaros ausentes), tu eras

simultâneo tradutor do tempo e da memória. Ela dormia,

respirava as estrelas, tu já nada tinhas

para lhe dar. Tu apenas erravas entre o coração e os rios.

Sim, o coração, as estiradas asas

de uma morte mais próxima do que todos os frios.


Porque é tão ansiosamente que espero por ti?

Sabias ocultar entre os teus menores movimentos

a lembrança de um corpo e de um ardor sem música

nem esquecimento possível. Quantas cidades

atravessámos, quantos «grandes são os desertos e tudo é

deserto»,

quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,

consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias

a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,

regressa. Nós nunca acordamos conformes,

nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,

vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas

fórmulas antigas. Da nossa idade

guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.

Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos

à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos

um inquietante rosnido entre as frestas do muro.

Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los

na mesma erosão do seu mágico movimento.

Porque é tão ansiosamente que espero por ti

se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?


Tudo o que ignoras é um sabor

esquivo e indómito, acercando-se

a ti entre as brechas singulares da noite

e o esquecimento dos nomes. Quantas dores

atravessam o fio das palavras, o sentimento

agudo de um vazio entre delírio e delírio, a

esquiva velocidade do amor! O que sabemos

não está oculto no intervalo das marés

nem dorme no que eu digo do teu corpo.

Tudo o que ignoras é um sabor

suspenso dos teus lábios, ou tão-só

inquieto sentir entre a carne e o amor.


Quando começámos a saber da corrupção

das palavras no tempo, quando foi que medimos

o declínio do amor, sua gentil

degradação nos signos mais evidentes e molestos?

Face ao silêncio que nós guardamos,

hoje é a tua ausência a chamar-me

em fluente reiteração. Que orvalho

cingiu o nosso durar, que sinais mais ambíguos

poderíamos ter deixado? A música, por vezes.

Mas quase sempre era sobre a terra esse intenso ruído do

amor,

as ceifadas do desejo, as núpcias do acaso e da invenção,

e nem sob o carro do feno lográvamos encontrar repouso.

As estações rodavam e um momento calámos

de saber demais tudo o que perdíamos.

A ironia tornou-nos por demais presentes:

quando começámos a saber da corrupção

do amor nos seus indícios mais trementes?


Nenhuma coisa, digo eu, pode ser mais vulnerável

à noite e às lágrimas. Sou vulnerável a ti

como o cervo antes da caça, como a persistência

das colheitas sob o sol. Onde ardem

as mudanças das estações, onde germina o lume,

aí me disponho às estrelas, aí recolho os tributos.

Que demorado luto rege agora os nossos protocolos!

Tivemos que nos acomodar a ritos e fórmulas

despidos de qualquer consagração.

Eu recordo as cerimónias breves do verão,

o adensar do outono, a prossecução da primavera.

Quem, digo eu, pode ser mais vulnerável a ti

do que um corpo que ainda treme do esquecimento de si?

Sem comentários: