segunda-feira, março 31, 2025

A memória não é só o que ficou.


A memória é um lugar sem mapas, onde os instantes se dissolvem e se refazem ao toque do pensamento. Ela não segue regras, não obedece a lógicas lineares. É uma gaveta desorganizada, onde um cheiro pode abrir portas que julgávamos trancadas, onde uma música pode nos transportar para um tempo que já não nos pertence, mas que, de alguma forma, ainda nos habita.

Há lembranças que chegam suaves, como brisa de fim de tarde, e outras que explodem dentro de nós sem aviso, rearranjando tudo o que acreditávamos ser estável. Algumas, escolhemos guardar com carinho, como quem dobra cartas antigas e as esconde no fundo de uma caixa. Outras, gostaríamos de esquecer, mas insistem em nos acompanhar, sussurrando suas histórias no silêncio da noite.

A memória não é só o que ficou. É também o que reinventamos, o que vestimos de outras cores para que o passado se torne suportável, para que possamos seguir em frente sem o peso esmagador do que foi. Ela é moldável, feita tanto do real quanto do que imaginamos, um mosaico de sensações, afetos e lacunas.

E, no fim, somos feitos dela. Dos dias que guardamos, das pessoas que se tornaram parte de nós, das palavras que ecoam mesmo depois do tempo as levar. A memória é o que nos ancora e, ao mesmo tempo, nos permite voar – porque é nela que mora tudo o que já fomos e tudo o que ainda somos.

quarta-feira, março 26, 2025

se for preciso


Morrer de amor

ao pé da tua boca


Desfalecer

à pele

do sorriso


Sufocar

de prazer

com o teu corpo


Trocar tudo por ti

se for preciso

quarta-feira, março 19, 2025

com as mãos carregadas de passado

Venho

com as mãos carregadas

de passado

venho agora

porque não sei o dia

nem a hora

e dentro de mim o tempo

está parado

 

 

terça-feira, março 18, 2025

Espero sempre por ti o dia inteiro




Espero sempre por ti o dia inteiro,

Quando na praia sobe, de cinza e oiro,

O nevoeiro

E há em todas as coisas o agoiro

De uma fantástica vinda.



quinta-feira, março 06, 2025

estávamos tão próximos das despedidas

Nunca digas

«para sempre»

meu amor

como disseste uma vez

já nem te lembras


a manhã entrava

pela janela do quarto


estávamos tão próximos das despedidas


a luz era tanta

que ainda hoje

nos cega

quarta-feira, março 05, 2025

Não voltarei à fonte dos teus flancos.

Não voltarei à fonte dos teus flancos

ao fogo espesso do verão

a escorrer infatigável

dos espelhos, não voltarei.

Não voltarei ao leito breve

onde quebrámos uma a uma

todas as frágeis

hastes do amor.

Eis o outono: cresce a prumo.

Anoitecidas águas

em febre em fúria em fogo

arrastam-me para o fundo.