terça-feira, maio 27, 2025

A memória é uma pedra esculpida em silêncio.

A memória não é uma câmara de munições perdidas

ou uma matriz de caracteres catalogados por

exclusão ou defeito ou pela soma destes

a memória é um processo e um espelho do

esquecimento

quando os planos se sucedem em áspero e espesso

desgosto

mas é também focagem suave nas secções em que a

consciência

se abriu atravessando o tempo pleno e duradouro.

A memória é uma pedra esculpida em silêncio.

sexta-feira, maio 23, 2025

Não entres docilmente nessa noite serena.

Não entres docilmente nessa noite serena,

porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;

odeia, odeia

a luz que começa

a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,

porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles

não entram docilmente nessa noite serena


quinta-feira, maio 22, 2025

apenas água de alegria

 «[...] corre uma paz imensa sobre o teu rosto molhado de luz. Os nossos lábios

não se despegam. Gozámos ao mesmo tempo, exaustos, na afluência da dor, e

mantemos as pernas enredadas, sinto os teus peitos erguerem-se, respirando, o

teu púbis espesso contra o meu, os nossos líquidos escorrendo misturados. Tem

vontade de gritar, de chorar, de lhe beijar os olhos, as axilas, as plantas dos pés,

de a adorar ritualmente. Mas deixa-se ficar quieto, uma réstia de lua que entra

pela porta a esfriar-lhes os corpos docemente. Só a aperta mais e ela sorri: pode

ser um sopro de triunfo, uma promessa, uma jura ou apenas água de alegria.»

segunda-feira, maio 19, 2025

a iluminar o fim.

Às vezes, sabes, é mais

difícil descobrir que o amor, como o cigarro,

quando se acende é que começa

a iluminar o fim.

quarta-feira, maio 14, 2025

Quero o sumo dos teus lábios.

Rosa vibrante dos subterrâneos

de uma nova resistência

desabrochas

com a luz do dia

sempre ao meu lado

o rosto e o seio

irradiando

o fogo jovem da paixão

dá-me essa água

da felicidade

que nos teus olhos brilha

Quero o sumo dos teus lábios

Entrar no jardim do teu corpo

é o esplendor da vida.

quinta-feira, maio 08, 2025

Ela era o mar e eu o rio.

Ela era o mar e eu o rio que nele desembocava. Era uma estrela e eu outra que marchava em sua direção. Encontrávamo-nos e nos sentíamos mutuamente atraídos, permanecíamos juntos e girávamos felizes por toda a eternidade em círculos muito próximos e vibrantes, um ao redor do outro.


terça-feira, maio 06, 2025

Sem precisar de palavras.

Quero-te o suficiente para te convidar a pisar folhas secas em uma dessas tardes,

para caminhar ao teu lado, chutando pedrinhas enquanto falamos de amor.

Quero-te tanto que nos imagino rindo sem motivo,

olhos apertados, como crianças que descobriram o prazer da felicidade simples,

vagando sem pressa pelas ruas, embriagados de nada e de tudo ao mesmo tempo.

Quero-te o bastante para te levar aos meus refúgios secretos,

para te mostrar onde me sento e penso em ti,

para te dizer, sem precisar de palavras, que cada canto desse mundo tem um pouco de ti em mim.

Amo-te o suficiente para desejar que tua risada ecoe na minha noite,

para fazer do teu sorriso a minha morada,

para nunca — nunca — te deixar partir.

Amo-te como se ama certos amores:

à moda antiga, com a alma inteira, sem medidas, sem dúvidas, sem olhar para trás.