Entre tantas coisas numa separação
é também uma língua que se extingue.
Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
Entre tantas coisas numa separação
é também uma língua que se extingue.
Às vezes, é longa a cura
Até o estágio de não sentir mais nada,
E não mais recair ao se encontrar
Em um lugar de onde já se partiu.
Apaga-me os olhos: posso ainda ver-te
tranca-me os ouvidos, posso ainda ouvir-te
e sem pés posso ainda andar para ti
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços e posso apertar-te
com o coração como com a mão
tapa-me o coração e o cérebro baterão
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue.
"(...) Não sabemos se ela o esqueceu, o certo é que ele a terá amado até ao fim da vida, talvez por a ter tido e depois a ter perdido, não como amiga, mas como corpo e paixão. A amizade distante é um magro consolo para quem já teve tudo. Talvez aquilo que já tivemos e que perdemos seja a fonte de uma imensa tragédia pessoal."
Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
Levanto a mesa, dobro a toalha de algodão bordada a ponto-cruz,
deixo as migalhas de pão na fronha, o doce de amora no armário.
Verto para a pia um resto de café e limpo os minutos que esqueceste no
fundo do prato, húmidos ainda como sementes de melancia. Depois
deito umas gotas de detergente na água, e a água cresce como uma
esponja quente sob as mãos ainda trémulas. E então esfrego os pratos,
e os minutos, e o vestido oloroso das violetas, como quem recita de cor
palavras de antigos sortilégios. Até que desapareces dos detalhes e é
possível respirar de novo sem me ferir inadvertidamente no ar.
Enquanto eu fiquei alegre,
permaneceram um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
Se nesta vida não for
Será nesta vida.
Virás de qualquer forma
Em forma de ti.
Chamarás
E o meu nome será
O que quiseres.
MATINAS
Tal como com as bétulas, assim é contigo:
não devo falar-te
de modo pessoal. Muito
se passou entre nós. Ou
foi só comigo
que se passou? É minha
a culpa, minha. Pedi-te
humanidade - não necessito menos
do que os outros. Mas a ausência
de qualquer sentimento, do mais pequeno
gesto de cuidado por mim - mais me valia continuar
a dirigir-me às bétulas,
como na minha vida anterior: que me façam
o pior, que me
enterrem com os românticos,
que as suas folhas amarelas e afiadas
tombem sobre mim e me cubram.
Sim, o amor acaba. Onde? Quando? Como? Numa esquina, por exemplo, num domingo de
lua nova, depois de teatro e silêncio; e acaba também em cafés engordurados, diferentes dos
parques dourados onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de
raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinza o
escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada a uma última
alegria, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos
saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos
soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e
acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e
monótonos espelhos paralelos; e no olhar do eterno cavaleiro errante que passou pela
pensão; às vezes acaba o amor nos braços crucificados de Jesus, filho torturado e
compadecido de todas as mulheres; no elevador, mecanicamente, como se lhe faltasse
energia; no andar diferente da irmã dentro da casa o amor pode acabar; na epifania da
pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;
quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra
coisa, o amor pode acabar; no telefone, onde tantas vezes o amor começa, o amor acaba; na
compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à
beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas não
floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores;
em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto
que desejo; e o amor acaba na simples poeira que vertem os crepúsculos, caindo
imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos
roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada;
em cavernas de sala e quarto conjugados o amor acaba; em Brasília o amor pode virar pó; no
Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou
depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada
fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque,
diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre
astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e
quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em
todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que
cobre o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é
simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que permanece reverberando sem
razão, até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse
melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou
articulada, e acaba o amor; na vaidade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração
da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em
todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os
lugares e a qualquer hora o amor acaba.