segunda-feira, setembro 29, 2025

Uma língua que se extingue.

Entre tantas coisas numa separação 

é também uma língua que se extingue.

sexta-feira, setembro 26, 2025

Despeço-me de mim, meu amor.

Agora que o orvalho dos teus silêncios

se estendeu sobre a folhagem rubra

no ardor desta terra de ninguém,

despeço-me de mim, meu amor.


Sei que a manhã continuará com danças

a seduzir a tua boca, flor

do meu arrebatamento. No meu lugar.

Como chão aberto às sementes de mim,

vem beber a nocturna nudez das uvas.

quinta-feira, setembro 25, 2025

É longa a cura.

Às vezes, é longa a cura

Até o estágio de não sentir mais nada, 

E não mais recair ao se encontrar 

Em um lugar de onde já se partiu.

terça-feira, setembro 23, 2025

Hei-de continuar a trazer-te no sangue.

Apaga-me os olhos: posso ainda ver-te 

tranca-me os ouvidos, posso ainda ouvir-te 

e sem pés posso ainda andar para ti 

e sem boca posso ainda invocar-te. 

Quebra-me os braços e posso apertar-te 

com o coração como com a mão

 tapa-me o coração e o cérebro baterão

e se me deitares fogo ao cérebro

hei-de continuar a trazer-te no sangue. 

"(...) Não sabemos se ela o esqueceu, o certo é que ele a terá amado até ao fim da vida, talvez por a ter tido e depois a ter perdido, não como amiga, mas como corpo e paixão. A amizade distante é um magro consolo para quem já teve tudo. Talvez aquilo que já tivemos e que perdemos seja a fonte de uma imensa tragédia pessoal."


segunda-feira, setembro 22, 2025

A iluminar o fim.

Às vezes, sabes, é mais

difícil descobrir que o amor, como o cigarro,

quando se acende é que começa

a iluminar o fim.

quinta-feira, setembro 18, 2025

Limpo os minutos que esqueceste no fundo do prato.

 Levanto a mesa, dobro a toalha de algodão bordada a ponto-cruz,

deixo as migalhas de pão na fronha, o doce de amora no armário.

Verto para a pia um resto de café e limpo os minutos que esqueceste no

fundo do prato, húmidos ainda como sementes de melancia. Depois

deito umas gotas de detergente na água, e a água cresce como uma

esponja quente sob as mãos ainda trémulas. E então esfrego os pratos,

e os minutos, e o vestido oloroso das violetas, como quem recita de cor

palavras de antigos sortilégios. Até que desapareces dos detalhes e é

possível respirar de novo sem me ferir inadvertidamente no ar. 

quarta-feira, setembro 17, 2025

Melhor é ser.

Enquanto eu fiquei alegre,

permaneceram um bule azul com um descascado no bico,

uma garrafa de pimenta pelo meio,

um latido e um céu limpidíssimo

com recém-feitas estrelas.

Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,

constituindo o mundo pra mim, anteparo

para o que foi um acometimento:

súbito é bom ter um corpo pra rir

e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo

alegre do que triste. Melhor é ser.

segunda-feira, setembro 15, 2025

um rio se vai aguando até ser mar.


demoras

mesmo quando chegas antes.

Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida

e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas

já não sou senão saudade

e as flores

tombam-me dos braços

para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar

em que te aguardo,

só me resta água no lábio

para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,

tomo a lua por minha boca

e a noite, já sem voz

se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba

e é uma nuvem.

O teu corpo se deita no meu,

um rio se vai aguando até ser mar.


quinta-feira, setembro 11, 2025

O que quiseres.


Se nesta vida não for

Será nesta vida.

Virás de qualquer forma

Em forma de ti.

Chamarás

E o meu nome será

O que quiseres.

terça-feira, setembro 09, 2025

Muito se passou entre nós.

 MATINAS


Tal como com as bétulas, assim é contigo:

não devo falar-te

de modo pessoal. Muito

se passou entre nós. Ou

foi só comigo

que se passou? É minha

a culpa, minha. Pedi-te

humanidade - não necessito menos

do que os outros. Mas a ausência

de qualquer sentimento, do mais pequeno

gesto de cuidado por mim - mais me valia continuar

a dirigir-me às bétulas,

como na minha vida anterior: que me façam

o pior, que me

enterrem com os românticos,

que as suas folhas amarelas e afiadas

tombem sobre mim e me cubram.





terça-feira, setembro 02, 2025

E a qualquer hora o amor acaba.

Sim, o amor acaba. Onde? Quando? Como? Numa esquina, por exemplo, num domingo de

lua nova, depois de teatro e silêncio; e acaba também em cafés engordurados, diferentes dos

parques dourados onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de

raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinza o

escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada a uma última

alegria, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos

saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos

soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e

acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e

monótonos espelhos paralelos; e no olhar do eterno cavaleiro errante que passou pela

pensão; às vezes acaba o amor nos braços crucificados de Jesus, filho torturado e

compadecido de todas as mulheres; no elevador, mecanicamente, como se lhe faltasse

energia; no andar diferente da irmã dentro da casa o amor pode acabar; na epifania da

pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;

quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra

coisa, o amor pode acabar; no telefone, onde tantas vezes o amor começa, o amor acaba; na

compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à

beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas não

floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores;

em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto

que desejo; e o amor acaba na simples poeira que vertem os crepúsculos, caindo

imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos

roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada;

em cavernas de sala e quarto conjugados o amor acaba; em Brasília o amor pode virar pó; no

Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou

depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada

fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque,

diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre

astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e

quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em

todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que

cobre o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é

simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que permanece reverberando sem

razão, até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse

melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou

articulada, e acaba o amor; na vaidade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração

da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em

todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os

lugares e a qualquer hora o amor acaba.