quinta-feira, setembro 18, 2025

Limpo os minutos que esqueceste no fundo do prato.

 Levanto a mesa, dobro a toalha de algodão bordada a ponto-cruz,

deixo as migalhas de pão na fronha, o doce de amora no armário.

Verto para a pia um resto de café e limpo os minutos que esqueceste no

fundo do prato, húmidos ainda como sementes de melancia. Depois

deito umas gotas de detergente na água, e a água cresce como uma

esponja quente sob as mãos ainda trémulas. E então esfrego os pratos,

e os minutos, e o vestido oloroso das violetas, como quem recita de cor

palavras de antigos sortilégios. Até que desapareces dos detalhes e é

possível respirar de novo sem me ferir inadvertidamente no ar. 

Sem comentários: