terça-feira, outubro 04, 2011

Às vezes é assim...

"Enquanto lês este texto, o meu coração desintegra-se. Sabes o que é sentir que há uma parte de nós a desfazer-se? Provavelmente nunca imaginarias que isso fosse possível, mas é. Os dedos tornam-se rígidos e é por isso que a escrita se torna tremida. A pele começa a ficar translúcida e vês o sangue a escorrer pelas veias. Estou agora a suar, sim, os pensamentos insistem em atropelar a língua e os lábios, à mínima brisa, desfazem-se como brasas.
Afinal sabes como é? Lembras-te como nos sentíamos juntos? Julgo que a situação é semelhante. A sensação de paixão não tem necessariamente de ser boa. Para mim é antes um desconforto, umas tremuras, um suor constante e um rol de consequências invulgares. Afinal até é bom. É diferente e o que é original é sempre bom. Vês como explica tudo? A rigidez dos dedos deve-se à ansiedade com que nos tocamos e ao desgaste contínuo dos nossos extremos, até que elas se tornam transparentes, como se soubéssemos o que nos vai na alma, como sentimos e o que sentimos. Os atropelos frequentes devem-se à volúpia com que consumimos o néctar que alimenta uma relação. Uma lascívia tal, que desintegra todo o nosso ser. As mãos tocam a terra húmida e a boca suaviza com o orvalho matinal. Em vez de um, tornamos-nos mil. Mil fragmentos, mil pedaços que recolhemos e guardamos na caixa dos afectos, para mais tarde, enquanto nos amamos novamente, voltarmos a juntar o que já foi único."

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