Impetuoso, o teu corpo é como um rio onde o meu se perde. Se escuto, só oiço o teu rumor. De mim, nem o sinal mais breve. Imagem dos gestos que tracei, irrompe puro e completo. Por isso, rio foi o nome que lhe dei. E nele o céu fica mais perto. E.A.
sexta-feira, dezembro 23, 2022
Até ao fim.
terça-feira, dezembro 13, 2022
segunda-feira, dezembro 12, 2022
Não chegaste.
Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora.
Não chegaste antes dos cem.
Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora.
Não chegaste antes do um.
Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora.
Não chegaste antes dos dez automóveis pretos.
Nem antes dos quinze táxis vazios.
Nem antes dos sete homens carecas.
Nem antes das nove mulheres loiras.
Nem antes das quatro ambulâncias.
Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.
quarta-feira, dezembro 07, 2022
Para dizê-lo a boca é muito pouco.
é quando olhado devagar que brilha o corpo.
Para dizê-lo a boca é muito pouco,
era preciso que também as mãos vissem esse brilho,
dele fizessem não só a música, mas a casa.
Todas as palavras falam desse lume,
sabem à pele dessa luz molhada.
terça-feira, dezembro 06, 2022
Arrumar as dores de outra maneira.
Mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.
segunda-feira, dezembro 05, 2022
Eu amo tudo o que foi.
EU AMO TUDO o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
terça-feira, novembro 29, 2022
A nossa história há muito que acabou.
C,
Não percebo. Juro que não consigo entender esta posição tão extremista, tão radical.
Estou completamente bloqueado.
Obrigado a cumprir por respeito a sua decisão.
Confrontado com o coração que não me deixa parar.
Até entendo. O castigo é meu. Mereço-o há muito. Por muito tempo. Talvez para sempre. Mas como não gosto de radicalizar, prefiro acreditar sempre no ate já.
Mas de um momento em que as únicas palavras de ordem são a sensibilidade e bom senso
A nossa história há muito que acabou. O meu amor não.
E nem é por ele que reclamo. Já lho disse que não me sinto no direito de te reclamar.
Nunca mais.
segunda-feira, outubro 24, 2022
Estou às escuras.
As memórias são facturas em teu nome sei que o adeus tem os seus rituais e o teu é deixar-me vazia a despensa dos sonhos às vezes pergunto o que fizemos mal vou enviar-te flores todos os outonos podes vir pelas facturas pelo menos as da luz estou às escuras por causa dos teus rituais
quarta-feira, outubro 19, 2022
A RESPOSTA É SEMPRE NÃO
terça-feira, outubro 18, 2022
Força de hábito ou fascínio do abismo.
Os becos do meu inferno vão quase todos dar ao largo da
fantasia, e de lá, tortuosos e íngremes, descem para o cais da desilusão. Num
vaivém de correrias, tropeçando, empurrando, fazendo um burburinho de
ensurdecer, agita-se neles o povo das recordações, esgueiram-se os muitos eus
que criei para existir e que depois, para sobreviver, tive de ir descartando.
Por vezes com a indiferença de quem abandona um disfarce inútil, outras com
pressas de malfeitor.
Nas paredes, cintilando coloridos, multiplicam-se os ecrãs
onde revivem os lugares e os rostos, dores minhas, dores alheias. Os momentos
que pareceram felizes e que o passar do tempo recobriu de incerteza e dúvida.
Horas de suplício. Horas de morte. Angústias de ontem, medos da infância,
vergonhas da mocidade, tudo se emaranha em simultâneo, o passado indistinto do
presente e do futuro, porque a tortura não conhece limites, e assim se nos
impõe, omnipotente.
As ondas da mesquinhez do dia-a-dia embatem contra a muralha
do cais, iluminadas às vezes pela claridade fugaz de uma esperança, enquanto no
céu opaco ecoam trovões longínquos. Menos temerosos, esses, do que a ameaça da
espessa névoa que de súbito tudo pode afogar: os sonhos, o marulho dos
pensamentos, as réstias de luz.
Para escapar à iminência do martírio, fecho a porta atrás de
mim, saio para o mundo envolto nas aparências do que não sou. E contudo, força
de hábito ou fascínio do abismo, é para o negrume dos becos do meu inferno que
infalivelmente retorno. Umas quantas vezes ao dia. Todas as noites. Sem que me
lembre excepção.
sexta-feira, outubro 14, 2022
Não quero mais sofrer.
"Partilho contigo um livro, que me entregaste e revejo-me nele em cada palavra! Sob a minha interpretação, escolhi estas palavras, em tom de despedida, porque considero que o Pedro Paixão, melhor do que eu, conseguirá expressar o sentimento que me domina...
'""Olhar para a frente sem saber o que vai ser de nós. Olhar para trás sem nada poder reviver, corrigir, emendar sequer. Não conseguir fixar o presente bem ou mau, tanto faz, o presente não será mais.'""
R, não me interpretes mal! Antecipo a despedida, aquela que tentava em existir! Não quero saber mais nada! Não quero viver na dúvida! Não quero mais sofrer...
O tempo encarregar-se-á de responder às minhas interrogações... E viveremos no silêncio das palavras e na cobardia das atitudes!
Um abraço forte e um beijo terno de adeus!"
quinta-feira, outubro 13, 2022
Para onde vai o amor?
https://www.youtube.com/watch?v=u1sFvNM8ygw
Quem me diz
Para onde vão os guarda-chuvas?
Os isqueiros, as infâncias, os talões?
Quem me diz
Para onde vão os nossos planos?
As ideias, os desejos, as ilusões?
Que universo paralelo
Que esconderijo, que alçapão,
Que fada transformou em nada,
Onde é que as coisas vão?
Para onde vai o amor
Quando se acaba
Para onde vai o amor
Se nunca acaba
Para onde vão todos os guarda-chuvas e os amores que eu já perdi?
Amores e guarda-chuvas
Amores e guarda-chuvas
Quem me diz?
Para onde foi a outra luva?
As moedas mais miúdas, as paixões?
Quem me diz
Será que no fim das coisas todas
Há um eterno nada, uma outra dimensão
Um universo paralelo
Um labirinto, um alçapão
Onde tudo enfim é o nada
Onde as coisas vão?
Para onde vai a dor
Que nunca cede
Para onde vai o amor
Quando se perde
Para onde vão todos os guarda-chuvas e os amores que eu já perdi?
segunda-feira, setembro 12, 2022
Carência contínua.
Sou uma alma de avidez, sei que me defino por uma carência contínua, porque nada me basta para sempre, quero ver mais e fazer mais qualquer coisa, e acredito que exista muito mais gente para amar, muito mais amigos, outros amigos, outros lugares.
A mim, não me convencem as simplificações definitivas. Só simplifico como higiene, para depois voltar a permitir todas as gestações, a exuberância, a imaginação sem fim. Uso a simplicidade, mas pressinto como certo descontrolo é mais natural.
Pressinto como somos livres na dimensão alarve da curiosidade e do risco. O mundo normal estabelece alguma austeridade como apanágio de saúde e bem-estar. Os gestos contidos, os compromissos cautelosos, as casas propensas ao vazio como se fossem de ser abandonadas no instante seguinte. Eu, que só sei viver numa casa onde tudo me agrade profundamente e, em certo sentido, me obedeça, tenho horror ao vazio e imito a companhia com livros e discos, com tantos quadros e figuras de Barcelos, os Cristos e os diabos, as cores das paredes e dos tecidos por toda a parte. Tudo é companhia, meia-forma de gente, alteridade, alguém. E acumulo o que me dão.
Adoro que me entreguem bilhetinhos, cartas de carinho, pequenos desenhos que façam a pensar em algo significativo, fotografias bizarras, colagens improvisadas até com fotos eróticas ou santinhos. Tudo é matéria de humanidade, de bravura de expressão, de recusa de morte.
Sou, pois, acometido de grave abandono em salas brancas sem coisa alguma. Ainda que aprecie a cristalina coisa de as habitarmos como fusíveis de uma lâmpada, sinto a tristeza do vazio, a propensa anulação de tudo, como se nós mesmos significássemos o quase intolerável atrito na luz, uma interferência insuportável e obscena. Sou ao contrário. Gosto de salas onde todos os corpos entrem e se imiscuam como naturais. Disfarçados pela profusão de outros corpos. Os meus preconceitos dizem-me que almas minimalistas propendem para estar fechadas aos outros e à diferença. São almas que se presumem maturadas, acabadas, como haverão de ser as profundas árvores, quietas e eternamente a fazerem a mesma coisa.
Os maximalistas, por outro lado, teatrais, temperamentais, carentes, é claro, são também predispostos a gostar, celebram cada pequena novidade, como os acumuladores, não se bastam e a alegria pode vir de uma insignificância, porque sabem que tudo serve ao somatório e existe uma gratidão até pelo contributo mais humilde.
Sou maximalista. Papéis de parede, estofos de “chinoiseries”, lençóis descasados, louças irregulares, tralhas afectivas. Sento-me num qualquer canto e estou ao meio da minha praça.
De que vale uma casa se não for para obrigar a solidão a vergar-se diante da memória de termos estado também, tantas vezes, acompanhados? Colecciono companhias. Às cores e de muitos tamanhos, a minha casa é babélica e mais rica do que o Palácio da Bolsa do Porto. Porque sobretudo o que tenho não se poderia comprar.
Guardo tudo.
"Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo "
sexta-feira, junho 03, 2022
O resto é mar. Que nos separa.
“Obrigada pelo e-mail que me enviaste...
Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho...
O resto é mar
É tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade...
Agora eu já sei
Da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver...
Vou te contar...
quinta-feira, maio 19, 2022
Arquivos da alma.
Tive um Amor, com pouco tempo de actividade, foi arquivado ainda na flor da idade.
Dizia ele que eu era agitada, que não tinha paz, e vivia num tempo futuro... Não sabia ele, que com tamanha inteligência e tanta sapiência falava dele e não de Mim. Chamava Ego o que desconhecia. E assim chegou ao fim.
Tive um Amor, que chegou devagarinho, e sem fazer barulho, foi ocupando o seu cantinho. Viveu e vive em mim, de forma eterna, de forma presente... É incondicional e como tal não pode ser rejeitado. Este não é seguramente arquivado porque vive no meu coração lado a lado.
Tive um Amor, que cresceu e floresceu. Plantou e regou. Fez acontecer e por tudo isso, não morre, não se despede não se afasta, não enfraquece. É amor que tem propósito, que deixa filhos, que é eterno. Fica meio arquivado em mim, não pelo passado mas pelo presente. Não pelo que foi, mas por tudo o que representa.
Tive um Amor, que rasgou, que sentou, que ocupou... o dele... o meu... deixou vazio. Deixou dor. Deixou o terror de o medo não saber gerir. Morreu no perdão. Morreu sozinho. Ficou sem lugar, ficou sem pergaminho. Arquivou e o seu bem superior se desejou.
Tive um Amor, que chegou sozinho, vinha de longe, percorreu um longo caminho. Sabia para que vinha, sabia a quem vinha. Promessa antiga, promessa ancestral. Amor do Divino. Aquele que te encontra para te levar ao teu cantinho. O profundo o que diz apenas de ti... em ti. É um Amor que se quer velhinho.
Tive um Amor, que chegou quando o precisava, que me embalou e o meu corpo segurou. Cada lágrima partilhada, cada sopro jubilado. É amor para a vida, porque a vida te entregou. São os que se querem em cada dia, aqueles que te fazem sorrir e te levam ao melhor de ti. Abraços apertados, corridas lado a lado.
Sem arquivos, sem dividas... São de coração... levam apenas os sentimentos que carregam a doce emoção de seres uma sortuda por tantos amores de luz, fazerem percurso no teu propósito.
Não se perdem os Amores... ou se arquivam ou se vivenciam, ou se desconectam ou em ti permanecem. Se os arquivares tem o cuidado de bem os guardares... foram importantes no seu tempo. Se os mantiveres, cuida com carinho, com amor, com intensidade. São demasiado importantes para que os deixes ao desalento.
quarta-feira, maio 18, 2022
Filmes
não te procuro
não quero procurar-te
nem tenho forças
para te procurar pergunto-me se terias coragem de apanhar o avião
num súbito arrebatamento do coração mas
isso só acontece nos filmes
ainda assim
pergunto-me se terias coragem
continuo a ver demasiados filmes
quinta-feira, maio 12, 2022
Existes.
Eu sei, não te conheço, mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.
Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.
Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
não é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito
e desagua em ti,
porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável,
uma outra maneira de habitares
em todas as palavras do meu canto.
Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre à tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.
quarta-feira, janeiro 19, 2022
É urgente permanecer.
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas.
É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhas claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente permanecer.
terça-feira, janeiro 18, 2022
Escreve-me como se ainda me amasses
Doce é o sacrifício dos frutos, fraterna
a luz dos pássaros. A terra canta, exibe agora
o esplendor dos vulcões, para acender na noite
o imenso candelabro do universo.
Ofereço a mim todas as vidas, todos os segredos
por detrás da aurora. Amo todo o silêncio,
toda a dor redonda de cada um dos dias.
O que vejo, o que sinto, é a respiração
das palavras, hálito doloroso das colinas da tarde,
a curva da fala que se demora na ternura das mãos
e de onde tomba o oiro dos relâmpagos ou
se debruça a luz fria das primeiras horas.
Escreve-me como se ainda me amasses.
E eu guardarei o fogo. Dar-te-ei o sol. Talharei o sílex
para o coração azul do pássaro. E o tecido dos beijos
para vestir a pele das coisas mais agrestes.
Dividirei com a tua boca o feroz vinho da juventude
e cantarei contigo todos os salmos da paixão.
Por fim, esperar-te-ei no rio, junto à margem. Onde
as romanzeiras se despedem do verão.
E onde, agonizante, caminha para o sol
o animal que aos poucos morre de tristeza.
