segunda-feira, março 27, 2023

Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo.

Se olhasses para mim verias nos meus olhos

a lancinante expressão da solidão

e a esperança sem qualquer indecisão

de que é possível o teu nome ser maior

que o céu que me vela o silêncio da noite.


Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo

e dar expressão à divindade que trago comigo

desde que atravessei a fronteira

que entre o mar e o mar estabelece

a luz mais verdadeira.


O mais sequer é tempestade que neste coração sangra,

ou dúvida subtil ou estremecimento,

sentindo o alvoroço em que te sinto

apenas peço que sejas tu o assombro

e me devolvas enfim a harmonia.


quarta-feira, março 22, 2023

Chegámos tarde a nós.

Chegámos tarde a nós.

Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.

Tu eras um longo muro de cimento areado

em que deixava a carne inteira

a caminho do encontro.


A primavera ficava-nos sempre

à esquerda, e tu cada vez mais

dentro de mim até não sentir nada,

até estares já do outro lado.

Para trás, a cova matinal na almofada,

o postal entre a leitura suspensa,

o número a chamar de um fantasma.


Se apagar as marcas de onde pousaste

a cabeça sobre a minha vida,

se ganhar novo espaço para o fôlego,

faz-me só um favor:

nunca mais me reconheças.


terça-feira, março 21, 2023

Somos bem melhores no fingimento.


De amor sabem falar os poetas. Nós, o comum, desajeitados e menos sensíveis, dizemos alguma coisa com os olhos, os gestos, mas sempre a pensar que ficamos aquém, perdidos nos temores que imaginamos. Somos bem melhores no fingimento.
Vem. Deita-te. Apaga a luz. Cerra os olhos. Não fales. Imagina a quem queres que empreste as palavras que te vou sussurrar.
Lembras-te da esplanada, aquela tarde, o acaso do nosso encontro, quando ao sentar-te tropeçaste e eu te segurei para que não caísses? Depois combinámos jantar, ambos inocentes, descuidados, sorrindo de tudo, adivinhando os subentendidos, felizes com aquela alegria ingénua de crianças. E o primeiro beijo, lembras-te?
Não respondas. Ouve. Ainda não era amor, só a excitação do início, o aperceber da descoberta. A iminência do destino que, soldando-nos, de dois faria um.
O que a seguir aconteceu é vivência de poucos, romance de paixão e loucuras, do espanto das confissões, da partilha dos segredos que envergonhavam e agora nos unem. A suavidade das mãos que se procuram quando nos deitamos. A harmonia dos sorrisos trocados. Certos olhares. O que os dedos aprenderam a soletrar na pele. A ternura dos momentos em que, compreendendo e perdoando, celebramos o reencontro.
É amor, sim, minha querida. Amor que se alimenta de pequeninas e grandes coisas, destes sussurros, dos beijos na escuridão da nossa fantasia, do modo como nos encaramos quando o dia começa.

Aquieta-te. Espera que eu saia e oiças fechar a porta.

quinta-feira, março 16, 2023

Apertando-te nos braços.

 Três fósforos… um a um acesos na noite

O primeiro para ver o teu rosto inteiro

O segundo para ver os teus olhos

O terceiro para ver a tua boca


E toda a escuridão para recordar tudo isso

Apertando-te nos braços



quarta-feira, março 15, 2023

Só nós não podemos ser.

 Não saberei nunca

dizer adeus

Afinal,

só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,

só nós não podemos ser

Talvez o amor,

neste tempo,

seja ainda cedo

Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quando tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo,

eu sei

Ainda assim,

escrevo



terça-feira, março 14, 2023

Este silêncio é que não.


"Se pudesse zangava-se. Sacudia o saco da tristeza. Se pudesse Isolava-se. Passava a ser um nobre eremita sem ralações intimas nem ambições. Qualquer ambição sugere-lhe logo a preguiça e a certeza da derrota merecida. Se pudesse tomava-se irascível, sarcástico e impossível de aturar. (...). Queria passar a sofrer da solidão de não querer. 

Este silêncio é que não." 



segunda-feira, março 13, 2023

Sempre.

 

Sempre me encerram os olhos de não ver, mas não às escuras,

Sempre me deitaram as lágrimas para correr e não para me deleitar nesse verso morto que é o teu corpo, antes de adormecer.

Sempre me prostrei perante a evidência da vida e me encantei com as facilidades inúmeras dos sonhos que inventei.

Sempre confundi amor com paixão e a vida com a emoção.

Sempre me apercebi das contingências, ignorei as vigências. 

Sempre vivi nessa latência, para quem o amor é construção e nunca, mas nunca, falta da cor do sangue da vida e no coração.

quinta-feira, março 09, 2023

dá-me tudo o que te falta!

dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura

algo que tenhas e não saibas

não quero dádivas raras

dá-me uma pedra

não fiques imóvel fitando-me

como se quisesses dizer

que há muitas coisas mudas

ocultas no que se diz

dá-me algo lento e fino

como uma faca nas costas

e se nada tens para dar-me

dá-me tudo o que te falta!

quarta-feira, março 08, 2023

Entre tremor e temor.

Não quero o primeiro beijo:

basta-me

o instante antes do beijo.

Quero-me

corpo ante o abismo,

terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo

entre tremor e temor,

o escurecer da luz

no desaguar dos corpos:

o amor

não tem depois.

Quero o vulcão

que na terra não toca:

o beijo antes de ser boca.