quarta-feira, março 22, 2023

Chegámos tarde a nós.

Chegámos tarde a nós.

Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.

Tu eras um longo muro de cimento areado

em que deixava a carne inteira

a caminho do encontro.


A primavera ficava-nos sempre

à esquerda, e tu cada vez mais

dentro de mim até não sentir nada,

até estares já do outro lado.

Para trás, a cova matinal na almofada,

o postal entre a leitura suspensa,

o número a chamar de um fantasma.


Se apagar as marcas de onde pousaste

a cabeça sobre a minha vida,

se ganhar novo espaço para o fôlego,

faz-me só um favor:

nunca mais me reconheças.


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