sexta-feira, junho 30, 2023

Vive-se com a esperança de se chegar a ser uma recordação.

 Saber morrer custa a vida.


Antes de percorrer o meu caminho eu era o meu caminho.


Vive-se com a esperança de se chegar a ser uma recordação.


Tudo é como os rios, obra das pendentes.


A flor que tens nas mãos nasceu hoje e já tem a tua idade.


As quimeras vêm sozinhas e vão acompanhadas.


Há dores que perderam a memória e não se recordam porque são dores.

sexta-feira, junho 23, 2023

Imagina.

Imagina que te escrevo em voz baixa. Falamos sempre baixo quando queremos que acreditem nas nossas palavras. E tudo o que aqui escrevo é verdade.

Escrevemos porque ninguém ouve. Escrevo-te porque estás longe, numa cidade onde o nevoeiro roubou o ar ao sol e as pessoas pensam mais do que sentem. Se ao menos estivesses aqui ao meu lado, passava-te a mão pela nuca, puxava-te ligeiramente os caracóis e então tu fechavas os olhos de prazer e eu sentia-te próximo. Mas isso agora não é possível. A tecnologia pôs ao nosso serviço meios fabulosos para podermos estar sempre em contacto. Posso telefonar-te para o telemóvel sempre que quiser e o tiveres ligado — o que é quase sempre, sem contar com o tempo que estás em reunião, a dar um seminário ou a voar de uma cidade para a outra —, posso enviar-te mensagens escritas ou posso ainda escrever-te e-mails. Se o desejar, consigo arranjar forma de entrar em contacto contigo duas ou três vezes por dia. E claro, como todas as raparigas do mundo que esperam por um rapaz, posso esperar que me telefones ou que um dia voltes. Mas tu não estás aqui; não vives no mesmo país e não respiras o mesmo ar. O teu sono é embalado noutras cidades: Londres, Paris, Madrid, Barcelona. A Europa fica-te bem, sabias? E o teu trabalho também, porque és um cidadão do mundo, ou pelo menos estás convencido que és.

Vou-te confessar uma coisa. Se for honesta comigo mesma, só um ou dois foram verdadeiramente importantes; os outros, que pensei amar, por quem chorei a distância e sofri na pele a ausência, foram apenas pretextos para viajar e aperfeiçoar línguas. 

sexta-feira, junho 16, 2023

Os teus olhos.

"(...)Todos os olhos que me tentam prender se perdem no meu vazio, porque em nenhum vejo os teus olhos.

Será que não amamos os outros pelo que são, mas por tudo o que nos fazem sentir? Sempre quis ser a pessoa que fui quando estava contigo, tu sabias, sem saber, exaltar o meu lado melhor, mais profundo, mais elevado, mais optimista (...)"

quinta-feira, junho 15, 2023

Ausência.

 A única verdadeira tristeza está na ausência do desejo. 

segunda-feira, junho 12, 2023

O poema nasce dentro das tuas mãos.

O poema nasce

dentro das tuas mãos

sempre que repousa

nelas o teu rosto.


Não é uma canção:

são os lábios apenas

quando despertaram

antes da palavra.


Arquitectura última

que depois se eleva,

porque tu a criaste

para sempre livre.


Talvez uma ave

seja a sua forma

ao passar o voo

que continua o poema.

quarta-feira, junho 07, 2023

Dói-me.

 dói-me o teu nome longínquo.

dói-me o irresistível artesanato da distância

terça-feira, junho 06, 2023

Projectam-se partos na memória.

Nada acontece em vão,

no verão, na vertigem,

na rendida voragem.


Tudo se precipita quando o outono range,

ruge, rola, confunde,

sob o bafo das bruxas.


Em vão nada se faz, nada se queima.

Projectam-se partos na memória.



segunda-feira, junho 05, 2023

Em cada um de nós.

 Em cada um de nós há um segredo,

uma paisagem interior

com planícies invioláveis,

vales de silêncio e

paraísos secretos