sexta-feira, junho 23, 2023

Imagina.

Imagina que te escrevo em voz baixa. Falamos sempre baixo quando queremos que acreditem nas nossas palavras. E tudo o que aqui escrevo é verdade.

Escrevemos porque ninguém ouve. Escrevo-te porque estás longe, numa cidade onde o nevoeiro roubou o ar ao sol e as pessoas pensam mais do que sentem. Se ao menos estivesses aqui ao meu lado, passava-te a mão pela nuca, puxava-te ligeiramente os caracóis e então tu fechavas os olhos de prazer e eu sentia-te próximo. Mas isso agora não é possível. A tecnologia pôs ao nosso serviço meios fabulosos para podermos estar sempre em contacto. Posso telefonar-te para o telemóvel sempre que quiser e o tiveres ligado — o que é quase sempre, sem contar com o tempo que estás em reunião, a dar um seminário ou a voar de uma cidade para a outra —, posso enviar-te mensagens escritas ou posso ainda escrever-te e-mails. Se o desejar, consigo arranjar forma de entrar em contacto contigo duas ou três vezes por dia. E claro, como todas as raparigas do mundo que esperam por um rapaz, posso esperar que me telefones ou que um dia voltes. Mas tu não estás aqui; não vives no mesmo país e não respiras o mesmo ar. O teu sono é embalado noutras cidades: Londres, Paris, Madrid, Barcelona. A Europa fica-te bem, sabias? E o teu trabalho também, porque és um cidadão do mundo, ou pelo menos estás convencido que és.

Vou-te confessar uma coisa. Se for honesta comigo mesma, só um ou dois foram verdadeiramente importantes; os outros, que pensei amar, por quem chorei a distância e sofri na pele a ausência, foram apenas pretextos para viajar e aperfeiçoar línguas. 

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