terça-feira, maio 21, 2024

Tu: a primavera luminosa da minha expectativa.

 Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a

manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me

a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,

até sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua

voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo

esse que mal corria quando por ele passámos,

subindo a margem em que descobri o sentido

de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo

que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,

de chegar antes de ti para te ver chegar: com

a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água

fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa,

a mais certa certeza de que gosto de ti, como

gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

sexta-feira, maio 17, 2024

Amei demais.

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 

todas as coisas que na vida eu emprenhei. 

Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 

como as tais coisas nas quais nunca pensei. 


Demais foram as sombras. Mais e mais. 

Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 

do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 

de onde parti sem saber por que embarquei. 


Amei demais. Sempre demais. E o que dei 

está espalhado pelos sítios onde vais 

e pelos anos longos, longos, que passei 


à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 

E os milhares de versos que rasguei 

antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

quarta-feira, maio 08, 2024

Fazem falta.

Fazem falta os poetas. 

Fazem falta ao Mundo, cada dia mais, por conta de todos os retrocessos que tentamos desastradamente combater. 

Fazem falta os poetas, mais pela dor que espelham nas escolhidas palavras do que pelo amor que delas emana, já que a tristeza, a ausência e a saudade precisam de eco para as aceitarmos dentro de nós com a paz e a sabedoria necessárias.

Fazem falta os poetas porque a sua linguagem encriptada estimula a imaginação e as suas metáforas subtis e inesperadas abrem janelas desconhecidas no pensamento.(...)

O amor ilumina a existência e também cega, por toda a luz que emana, providencial motor da existência e passaporte para o tal ideal de eternidade que o coração humano tanto anseia alcançar.

terça-feira, maio 07, 2024

Voa.

 "Levanta ao menos a cabeça, desprende o olhar, os dedos cativos abraça-me.

Abraça-me outra vez, como naquela manhã de assombro em que reencontrámos
o tempo e, ousados, corremos para o mar."

segunda-feira, maio 06, 2024

Pedir-te que me olhes.

Pedir-te a sensação

a água

o travo

aquele odor antigo

de uma parede

branca

Pedir-te da vertigem

a certeza

que tens nos olhos

quando me desejas

Pedir-te sobre a mão

a boca inchada

um rasto de saliva

na garganta

pedir-te que me dispas

e me deites

de borco e os meus seios

na tua cara

Pedir-te que me olhes

e me aceites

me percorras

me invadas

me pressintas

Pedir-te que me peças

que te queira

no separar das horas

sobre a língua