Sabes, ainda trago a vastidão azul
dos teus olhos dentro dos meus,
claros como as gotas do orvalho
que me magoam o peito inacessível.
Por que nos separaram como gémeos
imaturos quando mal abríamos
os olhos para as palavras?
Fui para ti a baía, o livro, a nuvem.
Foste para mim rochedo, barco e farol.
Foram chegando as cartas da partida,
marcadas pelo fim desde o princípio.
Foram tantas as coisas interditas,
silenciadas e amarradas nas noites.
Chorámos o vazio que antecedia os poentes
no céu que se abria, transparente, nas nossas mãos.
Tantos silenciosos gritos uniram os dois castelos
onde impacientes encostámos as sombras dos corpos.
Como faunos corríamos desnudos no areal e
dançávamos sem cuidados as voltas das ondas.
Águas misturavam-se com os olhos que já não
sabíamos meus ou teus, antes da alvorada.
Todos partiram em cinzas, amor, aqueles
que algemaram aos muros, o nosso tempo.