quinta-feira, outubro 26, 2023

Balada para uma Inês morta.

Se nos amassemos

pela manhã

ou na cadência louca

do entardecer,

se embalássemos

num canto de voz rouca

a luz do poente

ainda por nascer.

Se o nosso amor

fosse classificado

como um desses amores

ainda por dizer

ou, se outrossim,

lhe chamássemos

o amor talvez

ainda por fazer,

serias tu Pedro – o Rei

que inda há-de ser

e eu Inês já morta

sem te ter.



quarta-feira, outubro 25, 2023

do lugar vazio que deixaste no meu corpo.

Se me perguntas sobre o mundo

Dir-te-ei das ruas,

de todos os lugares onde passei,

da cor das árvores,

de todos os cheiros da cidade, 

dos lugares perdidos onde amei,

do odor dos frutos que provei.


Mas pergunta-me antes

das dores no peito,

do aperto desusado e imperfeito,

do lugar vazio que deixaste no meu corpo,

do abraço incumprido,

do meu coração desfeito

quinta-feira, outubro 19, 2023

Uma palavra bastava.

 

Às vezes uma palavra bastava para que eu soubesse que virias sempre ao    

meu encontro 

mas depois chegaram imprevistas    

tempestades

que desenharam estranhas perdições

 no mapa dos teus dedos 

e as palavras que ninguém quis

silenciaram a festa do meu corpo

 e cobriram o teu daquele silêncio imóvel

 dos lençóis que se estendem sobre as casas

abandonadas no fim do verão

segunda-feira, outubro 16, 2023

Onde o amor se perde.

Surdo, subterrâneo rio de palavras

me corre lento pelo corpo todo;

amor sem margens onde a lua rompe

e nimba de luar o próprio lodo.


Correr do tempo ou só rumor do frio

onde o amor se perde e a razão de amar

--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,

para onde vais, sem eu poder ficar?



sexta-feira, outubro 13, 2023

À prova de tempo.

Na loucura do tanto, na insensatez do sempre e do nunca. Tudo é intenso, tudo é muito. E a vida, como metáfora de um rio, tudo traz, tudo leva, tudo lava. Menos o amor. O amor é uma verdade à prova do tempo.

quarta-feira, outubro 11, 2023

O segredo.

Não tem segredo nenhum. 
Sempre o soube. 
O teu coração também consegue alimentar todas as almas que com ele se cruzam.


"A abóbora chama-se “Claudinha” e dá para alimentar 3000 pessoas."

"(...) Às sementes juntam-se meses de dedicação a estes legumes, paciência, sabedoria e até amor. A sua mulher acredita que o segredo está nisso mesmo, no carinho do trato que os leva até a batizar os legumes gigantes.(...)"

https://www.contacto.lu/portugal/esta-abobora-gigante-de-730-kg-e-a-maior-de-portugal/2672755.html?utm_medium=Social&utm_campaign=Echobox&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR2K4xNS2u2WsZmljLR_wXQsidAElHFC32s_Ta4MFE5cd3UWpEU1ojQZstY#Echobox=1693752667

segunda-feira, outubro 09, 2023

O mito é o nada que é tudo.


O mito é o nada que é tudo. 

O mesmo sol que abre os céus 

(...)

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre. 

Em baixo, a vida, metade

 De nada, morre.


quarta-feira, outubro 04, 2023

A conta viria.

"(...) Essas prestaram mais atenção no amor dos dois. Repararam, por exemplo, em Dalva e Venâncio comendo broa quente na padaria. Ela queimava a língua, cheia de graça, como se colhesse flores, e ele lhe dava beijos molhados como quem sopra um dedinho queimado de criança. Guardaram as vezes em que eles tomavam chuva juntos e as vezes em que ajeitavam a roupa de baixo um do outro na frente de quem quer que fosse, não davam notícias do entorno. Tudo que era na rua faziam juntos: comprar, consertar, passear, e os afazeres em casa eram brincadeiras de amor. Tão bonito quanto insuportável. Uma antipática felicidade, desumana com a solidão alheia. Quem podia acreditar em um amor daqueles? Para que ninguém nunca, em tempo algum, se atreva a achar que é a vida que inspira os livros baratos, ela, a vida, sempre disposta a nos levar até a morte, expõe, mais cedo ou mais tarde, aos berros, sua avareza: felicidade em demasia é dívida que não se pode pagar. A conta viria.(...) "

terça-feira, outubro 03, 2023

Chorámos o vazio que antecedia os poentes.


Sabes, ainda trago a vastidão azul

dos teus olhos dentro dos meus,

claros como as gotas do orvalho

que me magoam o peito inacessível.


Por que nos separaram como gémeos

imaturos quando mal abríamos

os olhos para as palavras?


Fui para ti a baía, o livro, a nuvem.

Foste para mim rochedo, barco e farol.


Foram chegando as cartas da partida,

marcadas pelo fim desde o princípio.

Foram tantas as coisas interditas,

silenciadas e amarradas nas noites.


Chorámos o vazio que antecedia os poentes

no céu que se abria, transparente, nas nossas mãos.

Tantos silenciosos gritos uniram os dois castelos

onde impacientes encostámos as sombras dos corpos.


Como faunos corríamos desnudos no areal e

dançávamos sem cuidados as voltas das ondas. 

Águas misturavam-se com os olhos que já não

sabíamos meus ou teus, antes da alvorada.


Todos partiram em cinzas, amor, aqueles 

que algemaram aos muros, o nosso tempo.

segunda-feira, outubro 02, 2023

Asas de ouro.

Creio no incrível, nas coisas assombrosas, 

Na ocupação do mundo pelas rosas, 

Creio que o Amor tem asas de ouro. 

Ámen.