terça-feira, outubro 03, 2023

Chorámos o vazio que antecedia os poentes.


Sabes, ainda trago a vastidão azul

dos teus olhos dentro dos meus,

claros como as gotas do orvalho

que me magoam o peito inacessível.


Por que nos separaram como gémeos

imaturos quando mal abríamos

os olhos para as palavras?


Fui para ti a baía, o livro, a nuvem.

Foste para mim rochedo, barco e farol.


Foram chegando as cartas da partida,

marcadas pelo fim desde o princípio.

Foram tantas as coisas interditas,

silenciadas e amarradas nas noites.


Chorámos o vazio que antecedia os poentes

no céu que se abria, transparente, nas nossas mãos.

Tantos silenciosos gritos uniram os dois castelos

onde impacientes encostámos as sombras dos corpos.


Como faunos corríamos desnudos no areal e

dançávamos sem cuidados as voltas das ondas. 

Águas misturavam-se com os olhos que já não

sabíamos meus ou teus, antes da alvorada.


Todos partiram em cinzas, amor, aqueles 

que algemaram aos muros, o nosso tempo.

Sem comentários: