"(...) Essas prestaram mais atenção no amor dos dois. Repararam, por exemplo, em Dalva e Venâncio comendo broa quente na padaria. Ela queimava a língua, cheia de graça, como se colhesse flores, e ele lhe dava beijos molhados como quem sopra um dedinho queimado de criança. Guardaram as vezes em que eles tomavam chuva juntos e as vezes em que ajeitavam a roupa de baixo um do outro na frente de quem quer que fosse, não davam notícias do entorno. Tudo que era na rua faziam juntos: comprar, consertar, passear, e os afazeres em casa eram brincadeiras de amor. Tão bonito quanto insuportável. Uma antipática felicidade, desumana com a solidão alheia. Quem podia acreditar em um amor daqueles? Para que ninguém nunca, em tempo algum, se atreva a achar que é a vida que inspira os livros baratos, ela, a vida, sempre disposta a nos levar até a morte, expõe, mais cedo ou mais tarde, aos berros, sua avareza: felicidade em demasia é dívida que não se pode pagar. A conta viria.(...) "
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