segunda-feira, outubro 20, 2025

Entre as ruínas e os reinícios.

Há relógios que não marcam o tempo,

apenas o esvaziam

Tens sentido isso também, não tens?

Essa leveza que afinal pesa -

o intervalo entre o gesto e o arrependimento,

entre o toque e o adeus

Fomos feitos de futuros que não aconteceram,

de respostas pensadas tarde demais,

de sorrisos que não se abriam no momento certo

Vivemos entre linhas por escrever,

entre portas que se abriram

apenas para revelar outras barreiras

Dizem que o tempo cura

Mas esquecem de dizer

que ele também rouba

Leva rostos que amámos,

cheiros que nos aconchegavam,

nomes que já não reconhecem o eco da nossa voz

E, ainda assim, caminhamos

Com passos gastos

mas olhos que procuram o que resta:

um toque inesperado,

um banco de jardim onde alguém ainda espera,

um raio de luz entre dois edifícios cansados

Talvez nunca tenhamos sido quem queríamos ser

Mas fomos quem conseguimos,

e isso - agora percebo - também tem dignidade

Há beleza em saber que o tempo não volta

Porque nos força a viver

A viver de verdade

Sem ensaio

Sem salvaguarda

A dizer hoje,

mesmo sem saber se há depois

E se algum dia

me perguntarem quem fui,

espero que não me definam pelos fracassos,

nem pelos triunfos

Mas por ter procurado permanecer inteiro

entre as ruínas e os reinícios

Por ter aprendido

a arte secreta de continuar

mesmo com os ponteiros partidos


sexta-feira, outubro 17, 2025

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:

sabe a lua-de-água

ao amanhecer,

sabe a cal molhada,

sabe a luz mordida,

sabe a brisa nua,

ao sangue dos rios,

sabe a rosa louca,


ao cair da noite

sabe a pedra amarga,

sabe à minha boca.



segunda-feira, outubro 13, 2025

De outra maneira não te quereria.

Quero ficar contigo por dentro de ti até o tempo se cansar de ser tempo, os corpos desmaiados, a tua mão esquerda devagar a abrir-se e a fechar-se, inteira. Quem te perde, julgando que lhe pertencias, insiste em andar sobre os passeios como se sem ti pudesse encontrar um lugar para dormir e, depois de encontrar, adormecer. Não pretendo que ninguém me vá salvar de todos os evitáveis desastres, por isso amo a tua mais íntima confusão, a tua insondável solidão, a tua inabalável vontade em te tornares para sempre invisível. Amo o teu cheiro mais intenso, a tua ferida aberta, o teu sangue a correr no coração da lua. Sou muitos, a isso me obrigas, cada qual com seu desejo onde não há partida e chegada. Só assim posso ser um, para poder ser outro, e que nunca te canses de mim. Só assim posso percorrer, palmo a palmo, o teu corpo e tocar-lhe, uma vez de cada vez, por entre uma nuvem de beijos. Abre a tua boca e deixa-a ficar aberta. Abre os teus ouvidos e deixa-os colher a minha respiração aflita. Abre os teus cabelos e deixa-os ficar assim, o teu sexo escondido sob a palma da minha mão.
De ti quero tudo. Sobretudo não esqueças o que não te digo. 
O que calo apenas a nós pertence e não pode ser revelado.
Ninguém compreende, de outra maneira não te quereria.





quinta-feira, outubro 09, 2025

Tem urgência, medo de encanto quebrado.

Meu amor é assim, sem nenhum pudor.

Quando aperta eu grito da janela

— ouve quem estiver passando —

ô fulano, vem depressa.

Tem urgência, medo de encanto quebrado,

é duro como osso duro.

Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:

quero é dormir com você, alisar seu cabelo,

espremer de suas costas as montanhas pequenininhas

de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.

Pouca gente gosta.

quarta-feira, outubro 08, 2025

Solitários, os rios adoecem.

 "Que um rio só é eterno porque vive de outras águas. Solitários, os rios adoecem."


sexta-feira, outubro 03, 2025

Não te espantes com o silêncio.

Faz no próximo mês meio século que nos enlaçámos na conservatória de Almada tu, esperta até ao evidente, levaste um vestido de noiva emprestado, um trapo de ocasião que só serve uma vez na vida; eu, o tolo de serviço, quis gastar o que não tinha e mandei fazer um fato de veludo cinzento, caro, que me ficou curto nas mangas e parecia que tinha sido emprestado.

Ontem, ao jantar, entre o enfado e a repulsa, disseste que íamos chegar, finalmente, às bodas de Inferno; ainda falta um mês, e tu olhas para mim como uma mobília que queres manter sem uso ou beleza até à cova; pois então, não te espantes amanhã quando acordares e eu já cá não estiver. Não te direi «vou comprar tabaco» - sabes que deixei de fumar há mais de dez anos quando soube que a nossa filha nos ia fazer avós, e eu queria ter pulmões para ver o meu neto numa ascensão de árvore ao longo dos anos, tão mais interessante do que o nosso murchar.

Não te espantes com o silêncio quando deixares de ouvir o enervante roer de maçãs, o ruído da minha existência, nem com o sossego das noites sem o roncar que te roubava horas de sonhos, e, sobretudo, não te admires quando ouvires dizer que tenho outra rapariga mais bonita que está disposta a namorar comigo, mesmo eu sendo velho e com pouco na conta poupança-reforma.

Queres saber? Mesmo que não queiras, vou contar - conhecemo-nos no centro de saúde no Fogueteiro; eu ia para uma consulta de rotina, ela tinha caído e vinha mudar o penso na perna. Começámos a conversar porque lhe cedi o meu lugar, e ela, «que não era preciso, mas agradecia». Começámos a conversar porque o médico estava atrasado, «num engarrafamento infernal do outro lado da ponte», anunciou a enfermeira ao grupo de velhos que enchia a sala de espera com suspiros, ais, reclamações pequeninas e grandes.

Começámos a falar porque esta moça - da mesma idade que nós - viu em mim um gesto cavalheiro e começou a falar da sua vida, com uma discrição e elegância que só reconhecia dos filmes; contigo foi sempre tudo às três pancadas, tudo à bruta, como se fôssemos desde sempre da mesma família, quando eu nunca fui da tua família, tivemos dois filhos e partilhámos uma casa quase cinquenta anos, mas hoje, olho para ti e vejo uma velha que me lembra a tua mãe e não a rapariga grosseira mas bonita, como uma estrela do cinema italiano.

 Depois da consulta convidei-a para almoçar no senhor Américo e apaixonei-me quando a vi sorrir entre colheradas do doce da casa, sem vergonha de ser feliz à minha frente, foi como se a alegria dela me trespassasse, e eu sei que tu também deves ser feliz às escondidas, mas eu já não me lembro como é.

 Depois a nossa filha disse-me que não atendias o telefone — vinte chamadas —, e eu, inquieto como um criminoso que ainda sente carinho por quem roubou, pus-me a caminho da nossa casa com a chave entre os dedos, pronto a descodificar o mistério do teu silêncio. E vi-te então na cozinha, vestida de noiva, o mesmo vestido que usaste há cinquenta anos e que disseste ter sido emprestado, a cortar legumes para a Juliana — que mais ninguém faz como tu —, sorriste com esses dentes que continuam direitos e branquinhos, e foste querida, como eu não me lembrava de alguma vez teres sido. «Diz-me lá, António, o que seria a tua vida sem mim?» De maneira que não te cheguei a falar da moça do centro de saúde.