segunda-feira, outubro 20, 2025

Entre as ruínas e os reinícios.

Há relógios que não marcam o tempo,

apenas o esvaziam

Tens sentido isso também, não tens?

Essa leveza que afinal pesa -

o intervalo entre o gesto e o arrependimento,

entre o toque e o adeus

Fomos feitos de futuros que não aconteceram,

de respostas pensadas tarde demais,

de sorrisos que não se abriam no momento certo

Vivemos entre linhas por escrever,

entre portas que se abriram

apenas para revelar outras barreiras

Dizem que o tempo cura

Mas esquecem de dizer

que ele também rouba

Leva rostos que amámos,

cheiros que nos aconchegavam,

nomes que já não reconhecem o eco da nossa voz

E, ainda assim, caminhamos

Com passos gastos

mas olhos que procuram o que resta:

um toque inesperado,

um banco de jardim onde alguém ainda espera,

um raio de luz entre dois edifícios cansados

Talvez nunca tenhamos sido quem queríamos ser

Mas fomos quem conseguimos,

e isso - agora percebo - também tem dignidade

Há beleza em saber que o tempo não volta

Porque nos força a viver

A viver de verdade

Sem ensaio

Sem salvaguarda

A dizer hoje,

mesmo sem saber se há depois

E se algum dia

me perguntarem quem fui,

espero que não me definam pelos fracassos,

nem pelos triunfos

Mas por ter procurado permanecer inteiro

entre as ruínas e os reinícios

Por ter aprendido

a arte secreta de continuar

mesmo com os ponteiros partidos


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