Há relógios que não marcam o tempo,
apenas o esvaziam
Tens sentido isso também, não tens?
Essa leveza que afinal pesa -
o intervalo entre o gesto e o arrependimento,
entre o toque e o adeus
Fomos feitos de futuros que não aconteceram,
de respostas pensadas tarde demais,
de sorrisos que não se abriam no momento certo
Vivemos entre linhas por escrever,
entre portas que se abriram
apenas para revelar outras barreiras
Dizem que o tempo cura
Mas esquecem de dizer
que ele também rouba
Leva rostos que amámos,
cheiros que nos aconchegavam,
nomes que já não reconhecem o eco da nossa voz
E, ainda assim, caminhamos
Com passos gastos
mas olhos que procuram o que resta:
um toque inesperado,
um banco de jardim onde alguém ainda espera,
um raio de luz entre dois edifícios cansados
Talvez nunca tenhamos sido quem queríamos ser
Mas fomos quem conseguimos,
e isso - agora percebo - também tem dignidade
Há beleza em saber que o tempo não volta
Porque nos força a viver
A viver de verdade
Sem ensaio
Sem salvaguarda
A dizer hoje,
mesmo sem saber se há depois
E se algum dia
me perguntarem quem fui,
espero que não me definam pelos fracassos,
nem pelos triunfos
Mas por ter procurado permanecer inteiro
entre as ruínas e os reinícios
Por ter aprendido
a arte secreta de continuar
mesmo com os ponteiros partidos
Sem comentários:
Enviar um comentário