Faz no próximo mês meio século que nos enlaçámos na conservatória de Almada tu, esperta até ao evidente, levaste um vestido de noiva emprestado, um trapo de ocasião que só serve uma vez na vida; eu, o tolo de serviço, quis gastar o que não tinha e mandei fazer um fato de veludo cinzento, caro, que me ficou curto nas mangas e parecia que tinha sido emprestado.
Ontem, ao jantar, entre o enfado e a repulsa, disseste que íamos chegar, finalmente, às bodas de Inferno; ainda falta um mês, e tu olhas para mim como uma mobília que queres manter sem uso ou beleza até à cova; pois então, não te espantes amanhã quando acordares e eu já cá não estiver. Não te direi «vou comprar tabaco» - sabes que deixei de fumar há mais de dez anos quando soube que a nossa filha nos ia fazer avós, e eu queria ter pulmões para ver o meu neto numa ascensão de árvore ao longo dos anos, tão mais interessante do que o nosso murchar.
Não te espantes com o silêncio quando
deixares de ouvir o enervante roer de maçãs, o ruído da minha existência, nem
com o sossego das noites sem o roncar que te roubava horas de sonhos, e,
sobretudo, não te admires quando ouvires dizer que tenho outra rapariga mais
bonita que está disposta a namorar comigo, mesmo eu sendo velho e com pouco na
conta poupança-reforma.
Queres saber? Mesmo que não queiras, vou contar - conhecemo-nos no centro de saúde no Fogueteiro; eu ia para uma consulta de rotina, ela tinha caído e vinha mudar o penso na perna. Começámos a conversar porque lhe cedi o meu lugar, e ela, «que não era preciso, mas agradecia». Começámos a conversar porque o médico estava atrasado, «num engarrafamento infernal do outro lado da ponte», anunciou a enfermeira ao grupo de velhos que enchia a sala de espera com suspiros, ais, reclamações pequeninas e grandes.
Começámos a falar porque esta moça - da mesma idade que nós - viu em mim um gesto cavalheiro e começou a falar da sua vida, com uma discrição e elegância que só reconhecia dos filmes; contigo foi sempre tudo às três pancadas, tudo à bruta, como se fôssemos desde sempre da mesma família, quando eu nunca fui da tua família, tivemos dois filhos e partilhámos uma casa quase cinquenta anos, mas hoje, olho para ti e vejo uma velha que me lembra a tua mãe e não a rapariga grosseira mas bonita, como uma estrela do cinema italiano.
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