Quando apareceste estava completamente perdido, no meu universo comum.
Havia sol, havia árvores, mas não havia nada. Porque não sabia sorrir para eles como sorri para ti, para mim, para nós, quando te conheci. Quando te amei. Quando te olhei e percebi que no fundo dos teus olhos cabia o meu mundo inteiro. E o meu mundo só precisava de ti.
Antes estava a sufocar no paliativo quotidiano, ao sabor da corrente, mas sem o rumo do Rio do Teu Corpo.
A verdade é que nada fazia sentido. E agora pouco mudou. Nada.
No curso do nosso caminho, deixei se sentir as águas turvas e todos os dias me baptizava no Rio do Teu Corpo, renascia em cada beijo, crescia em cada abraço, na salvação da minha alma tua.
Depois chegou o Inverno. Da minha tristeza.
Vi-te fugir e seguir cada vez mais longe, seguindo a intensidade do rio, a caminho do oceano.
O nosso mundo ficou mudo.
O coração ficou surdo.
Às vezes tentava nadar na tua direcção, acreditando que era possível chegar a ti.
O esforço foi inútil, e o rio teimava em te deixar navegar longe demais.
Nadava desesperado ao teu encontro. Também tu me procuraste. Sei que sim.
Tu, meu porto seguro.
Ganhei. Ganhaste. Perdemos. Perdemo-nos. Perdemo-nos. Perdi. Perco todos os dias.
Perdemo-nos nas águas turvas. Onde foi que nos perdemos?
Em vez do Amor, fizemos apenas um esforço inútil para não nos afogarmos.
Cada vez que nos afástavamos deixámos de insistir.
E cada braçada já não era um esforço para avançar, apenas para nos mantermos à superfície.
Hoje não tenho senão forças senão para nadar na memória do teu corpo.
Hoje já não tenho forças. Nos braços.No corpo. Na alma.
Apenas a doce saudade e vontade de te encontrar ali, no imenso mar que o rio da memória me traz todos os dias a ti ao mesmo tempo nos separa.. Aqui, no café, na praia ou na biblioteca. Sempre te encontro. Nunca te vejo. Nunca te beijo. Ressaco por um abraço. Choro por uma palavra.
Se a maré ao menos ouvisse as minhas preces e te trouxesse até mim.