Hoje, depois de uma manhã atribulada, na pausa para o almoço, comecei a rabiscar desenhos sem sentido no canto do jornal, que todos os dias o regime gosta de distribuir ao povo, com o dinheiro do povo, para defesa do povo. Coitado do povo.
Enquanto aguardava pelo almoço, talvez por causa fome, esgotei todas as hipóteses para concluir as palavras cruzadas, que tanto gosto de fazer, desta vez sem sucesso.
Acabei por voltar aos gatafunhos. Aqueles que sempre me habituei a fazer no compasso de espera. Já não me lembro muito bem, entre tentativas de bonecos, muros ou formas geométricas totalmente desenquadradas... risquei e perdi o rumo ou a intenção do desenho... se é que este tinha alguma.
Como sempre.
A intenção permanece.
Mas o desenho sai sempre torto.
Como a nossa relação. Começámos com pequenos traços. Tentámos apagar alguns. Escrever novos. Riscar. Uns por cima dos outros.
Depois passámos tudo a limpo. Utilizámos a caneta. E não quis mais apagar, rasgar ou atirar fora os rabiscos.
Quis escrever uma história contigo. Também tu o quiseste. Também tu sonhaste.
Com erros à mistura, com a caligrafia inclinada para direita, para a esquerda, letras garrafais ou redondas, a nossa história mereceu ser escrita e merece ser recordada.
Agora só desenho apenas muros. Como as deste do jornal, depois do tédio. Antes do almoço. Por causa da fome.
Ainda não entendi porque rabisquei tantos muros na nossa relação. Não percebi porque não desenhei o sol e a praia e o amor que nos uniu.
Talvez porque não saiba. Eu tentei. Risquei tudo.
Hoje sei que não se apagam os rabiscos tortos que por estupidez fui riscando no teu coração.
Também sei que os nossos rabiscos ficaram marcados nas páginas na minha vida e que, por mais que tente, não conseguirei apagá-los. Foram feitos com tinta de Amor Permanente.
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