segunda-feira, março 31, 2014

A minha saudade tem o mar aprisionado.

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

domingo, março 30, 2014

O teu sorriso.

E o teu sorriso?
Há muito que o escondes. E não só de mim.
Bem sei que decidiste finalmente usar a ciência para os outros também o saibam apreciar.
Da minha parte, guardo sempre o primeiro, verdadeiro, só nosso.
Vou levá-lo neste sonho.

terça-feira, março 25, 2014

És (minha) musa.

Continuas mulher, ainda que que no meu verso
eu te componha neste outro universo
onde suspensos sobre o rio do tempo
dançamos o tango das nossas vidas.

És musa e tema, és do poema a palavra e a razão,
és o corpo que moldo com as mãos na cama,
e continuas a ser a imagem que me vence a expressão
sem que nesta união eu atinja o gozo da posse

que está sempre além do que a palavra encobre,
e reconheço a minha poesia fraca e pobre
ante a fortaleza e o ouro da tua beleza.

Tu, que és ideia e mulher, e te pões à minha frente,
desafiante e desnuda para que te consagre no lençol
deste papel onde o que fica é o fracasso do escrevente.

segunda-feira, março 24, 2014

Preciso contar-te.

Nem tudo são tristezas.
Preciso contar-te.
Falar-te de coisas.
Que deixei de fumar. O vício não consegue apagar a tua ausência.
Que vendi o carro Nenhum bem material me compensará das emoções, sensações que vivi ao teu lado.
Que sempre que vejo a nossa amiga (mais tua do que minha, eu sei!), fico desesperado por saber de ti, ouvir na segunda pessoa porque não posso perguntar à primeira. 
Fujo todos os dias para não o fazer. Às duas.
Que vou ao ginásio todas as manhãs!!! Verdade! Ficava sempre preocupado, com dietas, corridas, cremes, penteados, na iminência do nosso encontro. Como tal deixou de acontecer, desleixei-me tanto que me senti péssimo ao olhar ao espelho.
Que estou a tentar apaixonar-me por novos e velhos hábitos com a música ou a leitura e o cinema.
Que faço formações que quase nada têm que ver com o cargo que agora exerço, mas que me fazem bem por me manter ocupado, mentalmente distraído.
Que tentei contrariar insistentemente, este hábito remissivo de te escrever, ler ,cantar, orar, chorar, mas também sorrir por ti e para ti.
Que te Amo. Sempre.

Volto agora, paulatinamente ao ritmo, para tentar navegar neste "mar aparentemente calmo" de saudade.

quarta-feira, março 19, 2014

Porque o coração não consegue apagar-te.

Regresso.
Com a mesma rapidez com que me ausentei.
Com o triplo da saudade, que não me deixa seguir, evitar, esquecer.

Porque o coração não consegue apagar-te.

segunda-feira, março 17, 2014

Tento fugir.

Quanto mais tento fugir de ti, esta dor de nós, lancinante, sufoca-me o discernimento.
Bem tento ficar longe das palavras que sempre quero partilhar contigo.
Entre nós sempre existiu o melhor diálogo do mundo. E outras vezes não. Mas as palavras. Essas sim. Boas ou más.
Gastámos bem as palavras, alguém já escreveu.
Mas a verdade é que prefiro mil vezes fazê-lo, do que guardá-las e ficarem a roer dentro do peito.
Arrependo-me sempre do que não disse.
Devia verbalizar este Amor louco que sinto por ti, todos os dias, até ao fim da minha vida.
Esta é mesmo a última forma de o fazer, usando palavras mudas.
Talvez um dia as escutes.

sexta-feira, março 14, 2014

O que a dor não sabe.

No espaço escondido por detrás da minha mente, refugia-se a dor a dor, esquecida, dormente, num lugar sem limites, nem regras, nem lei, a que costumamos chamar de inconsciente, o lugar onde as sombras falam e onde a dor mente, e finge que sim, que é inocente, e finge que não, não rasga a gente, e finge que acredita, finge que é crente, e se acha especial, se acha diferente, só porque vive esquecida, escondida, dormente, e assim se passeia nas traseiras da mente...Mas o que a dor não sabe, nem pensa, nem sente, convencida que está de que é diferente, erguida que está no pedestal da soberba, é que, mesmo que seja feito de ouro o seu pedestal, e se ache rebelde e até especial, nenhuma alma por onde passe alguma vez fica igual.

Com ou sem mim.

Juro que tentei.
Ficar uns dias sem  esta relação unilateral em que, basicamente, expresso sentimentos e espero que leias e compreendas o que, do fundo da alma, tento dizer.
A verdade é que preciso de desabafar.
Partilhar contigo o pouco que posso.

E desejar-te Amor.
Com ou sem mim.
Que sorrias. Muito. Com o  teu novo sorriso.Sei que está para breve.
Beijo.
Saudades.

quarta-feira, março 12, 2014

Difícil.

Como todos os dias sem ti. 
Este só está a custar mais a passar.

Hoje acordei e senti-me sozinho
Um barco sem vela
Um corpo sem linho.
Amanheci e vesti-me de preto,
Um gesto cansado
O olhar do deserto.

Quando todos vão dormir
é mais fácil desistir,
Quando a noite está a chegar
É difícil não chorar.

Eu não quero ser
a luz que já não sou,
Não quero ser o primeiro
Sou o tempo que acabou.
Eu não quero ser
As lágrimas que vês,
Não quero ser primeiro
Sou um barco nas marés.

Adormeci
Sem te ter a meu lado,
Um corpo sem alma
Guitarra sem fado.
Um sonho na noite
E olhei-me ao espelho,
Umas mãos de criança
Num rosto de velho.






terça-feira, março 11, 2014

Te venero.


Mal-me-quer… tu dirás; mas nem sei se te quero,
Insinuante visão, que outrora amei na vida,
E que foste por mim no mundo a preferida
Mal-me-quer… mal-me-quer! entanto te venero.

Bem-me-quer… pensarás, talvez, mulher fingida
Mas, se escuto teu nome, às vezes desespero…
E assim quero viver distante, rude e austero.
Sem nunca mais te ver, – embora a alma abatida!

Mal-me-quer… bem-me-quer… E a tua vida encerro
Hoje, neste amargoso e tétrico dilema,
Fazendo-te sofrer num círculo de ferro.

E eu também, como tu, prossigo neste enleio
Pois não sei se te voto adoração extrema,
Nem mesmo sei dizer, Mulher, se inda te odeio!

segunda-feira, março 10, 2014

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.




Ilusão.

Afinal não estiveste.
Não fizeste.
Não riste nem dançaste.

E eu não me importei.
Não desesperei.
Não procurei.
Nem reclamei.

Foi pura manobra de (in)versão.

Desilusão.
Não.
Ilusão.

Apenas prolongaste este estado de ansiedade.

domingo, março 09, 2014

O abraço da verdade.

Ficava-nos bem.
A nostalgia no encontro.
A cortesia na saudação.
O abraço da verdade.
O peso da separação.

Bastava seres tu. Porque sei que és assim. Para sempre.

Ver-te seria o último desejo de um moribundo sequioso de Amor.

Adeus.

Mas não. Não aconteceu

Bem sei que pediste paz. Tranquilidade. Sei bem que entre nós não há nada a fazer. Que a vida nos traçou rotas diferentes.
Ou não.
Mas aceito.

O que não posso crer é que regressaste à nossa ilha e me fizeste correr como um louco à tua procura, para logo a seguir me refugiar entre quadro paredes com pânico de te encontrar.

O que não posso acreditar foi que passaste tão perto e nem acenaste.
Um gesto, um movimento quase involuntário com a cabeça.
Qualquer coisa.
Não, não pedia a hipocrisia do cumprimento circunstancial. Ou até isso. Qualquer caridade teria feito milagres. Daqueles que só tu consegues realizar.
Mas não. Não aconteceu.

Já só bastavam os teus olhos numa troca fugaz.

Conversaste, jantaste, bebeste com tanta gente que te desprezou, ignorou ou até escarnizou.

Para mim, nem um abraço.

sábado, março 08, 2014

Como se fosse possível.


Sonhei tanto em odiar-te que acordei com ainda mais saudades.
Como se fosse possível.
Trouxeste para a ilha o Sol.
Sem o brilho dos teu olhos que viria ele cá fazer?
Divirta-se Tinhosa.

Loucos seríamos se não o fizéssemos.

(...) e eu só queria saber do teu sabor, da tua boca molhada, desses lábios que queria mordiscar, da tua língua na minha, das palavras que não precisávamos de dizer e desses nossos beijos demorados em que sabíamos haver um todo maior que as partes, que num beijo assim se salva o mundo, que entre duas bocas há um abismo mas também um Evereste e que não éramos loucos, loucos seríamos se não o fizéssemos.



Mais que nunca.

Porque me pedes a calma quando a tua presença anuncia a  instabilidade.
Porque me pedes o rio quando tu és o mar revolto em tempestade.
Porque pedes distância quando a tua presença é real?
Hoje odeio-te porque te amo. Muito. Ou o inverso.
Mas sinto-te. Por inteiro.
Mais que nunca.
 

quinta-feira, março 06, 2014

És tu. Assim.

"Eu sou insaciável! Mal um desejo surge, outro desponta, e em mim há sempre latente a febre do sonho e do desejo, e quando possuo alguma coisa de infinitamente consolador, desejo mais, mais ainda, mais sempre! Conhece-se em mim o afecto, o amor, a ternura por um egoísmo implacável que quer tornar muito meus, e só meus, os corações que se me dedicam um pouco. "

quarta-feira, março 05, 2014

Verdade.

A verdade.
Quase sempre fugi da verdade.
Mas verdade que a verdade liberta.
E a verdade é que te amo.

terça-feira, março 04, 2014

A dor da verdade é dura.

A Dor da Verdade


A dor da verdade não mata

mas corrói, queima, deixa uma impressão

que paralisa as células,

todos os pedaços de que somos feitos

do momento mais minúsculo, inoportuno,

à profundeza da noite mais escura,

mais larga ou funda como o oceano.

A dor da verdade é terrível,

ela lembra tudo, chama, decompõe

o que estava sintetizado, esquecido,

arrumado no canto mais banal,

e traz à superfície todas as paisagens,

cheiros, momentos, tudo quanto é inesperado

e não depende da vontade ou do querer.

A dor da verdade é como uma criança

perdida sem um colo que a receba,

um sorriso desperdiçado, posto na lama

por não haver outro que o mime

ou um olhar que se turva e esconde,

mesmo quando o gesto é ternura

e todas as palavras tentam dizer amor.

A dor da verdade prende, pica

como uma roseira brava qualquer

e se são lindas essas rosas abertas

o perfume que deita toda a primavera

mesmo quando parece que o tempo parou

e se fez inverno para sempre

e o ritmo é andante, lento, lentíssimo.

A dor da verdade é como a morte

deixa um frio que percorre o corpo,

põe a chorar os amigos que a olham

faz crescer as palavras mentira, é mentira,

busca o desejo de fuga, um manto

e leva muito tempo a passar, tanto

que nunca sabemos se cura.

Mas a dor da verdade liberta

como uma ferida arrancada, exposta,

recebe, pulmão aberto, ar fresco

e alivia, sossega, acalma,

traz, finalmente, de volta o sono,

a vontade de rir, a mais forte alegria de viver,

o sol iluminando em festa.

A dor da verdade é dura

mas recompensa, faz crescer

como criança outra vez, amplia,

faz recomeçar tudo um primeiro tempo

e assim como castiga, perdoa,

como afasta, une, abraça depois e diz

custou tudo muito, mas valeu a pena.

A dor da verdade

- vão dizer-vos o oposto -

não nos prende. Liberta.



O teu calor.

Estás de regresso. É praticamente uma realidade.
A sensação de te encontrar no outro lado da rua, a atravessar a passadeira ou a sair do café enquanto leio o jornal à procura de notícias ainda mais tristes que me façam esquecer a minha própria amargura,pensando mais na desgraça alheia e nas desilusões com a Humanidade, é assustadoramente real.
Estás finalmente tão perto que acabo de fugir para longe.
Para não agitar as águas, como tão eloquentemente escreveste, onde calmamente navegámos e também fomos felizes.
Foi o pedido mais difícil de cumprir, de todos os que prometemos um ao outro.
Juro que bastava ver-te sorrir para ser mais fácil.
Talvez um dia mereça esse privilégio.
Que voltes a ser feliz na ilha que nos acolheu, juntou e separou.
Quando voltar, já só imploro por sentir o calor da tua existência.
Para sempre.
Divirta-se Tinhosa.

domingo, março 02, 2014

Já não sou preciso.

Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.