terça-feira, março 04, 2014

A dor da verdade é dura.

A Dor da Verdade


A dor da verdade não mata

mas corrói, queima, deixa uma impressão

que paralisa as células,

todos os pedaços de que somos feitos

do momento mais minúsculo, inoportuno,

à profundeza da noite mais escura,

mais larga ou funda como o oceano.

A dor da verdade é terrível,

ela lembra tudo, chama, decompõe

o que estava sintetizado, esquecido,

arrumado no canto mais banal,

e traz à superfície todas as paisagens,

cheiros, momentos, tudo quanto é inesperado

e não depende da vontade ou do querer.

A dor da verdade é como uma criança

perdida sem um colo que a receba,

um sorriso desperdiçado, posto na lama

por não haver outro que o mime

ou um olhar que se turva e esconde,

mesmo quando o gesto é ternura

e todas as palavras tentam dizer amor.

A dor da verdade prende, pica

como uma roseira brava qualquer

e se são lindas essas rosas abertas

o perfume que deita toda a primavera

mesmo quando parece que o tempo parou

e se fez inverno para sempre

e o ritmo é andante, lento, lentíssimo.

A dor da verdade é como a morte

deixa um frio que percorre o corpo,

põe a chorar os amigos que a olham

faz crescer as palavras mentira, é mentira,

busca o desejo de fuga, um manto

e leva muito tempo a passar, tanto

que nunca sabemos se cura.

Mas a dor da verdade liberta

como uma ferida arrancada, exposta,

recebe, pulmão aberto, ar fresco

e alivia, sossega, acalma,

traz, finalmente, de volta o sono,

a vontade de rir, a mais forte alegria de viver,

o sol iluminando em festa.

A dor da verdade é dura

mas recompensa, faz crescer

como criança outra vez, amplia,

faz recomeçar tudo um primeiro tempo

e assim como castiga, perdoa,

como afasta, une, abraça depois e diz

custou tudo muito, mas valeu a pena.

A dor da verdade

- vão dizer-vos o oposto -

não nos prende. Liberta.



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