quarta-feira, dezembro 18, 2024

E sei bem o que significa a tua ausência.

 Hoje estava à tua espera

 e não vieste.

 E sei bem o que significa a tua ausência, 

a tua ausência que alvoroçava

 o vazio que deixaste, 

como uma estrela. 

Dizes que não me queres amar. 

Como uma tempestade de verão

 que se anuncia e depois se afasta,

 assim te negaste à minha sede.

 O amor, ao nascer,

 tem destes arrependimentos inesperados. 

Em silêncio

 nos entendemos. 


 Amor, amor, como sempre, 

quisera cobrir-te de flores e de insultos 




quinta-feira, dezembro 05, 2024

Assim se revisita o Coração.


Só mal tocando as cordas

Da memória

Consegue o coração ressuscitar


Porque era este lugar

que eu precisava agora

como em deserto até

ao infinito,

e de repente,

uma gravidez imensa,

um cacto verde e limpo


Porque os olhos conhecem

estes sons

de dar à luz o vento

e são-lhe amantes

de tangível luz


Só mal tangendo as cordas

da memória

como estas flores

se tingem de alegria


Porque era neste azul

que eu me queria

como a rocha transpira

e se resolve


segunda-feira, dezembro 02, 2024

Tempo.

 Tivesse ainda tempo e entregava-te

o coração

terça-feira, novembro 05, 2024

Como é amargo não poder guardar-te.


Estranho é o sono que não te devolve.

Como é estrangeiro o sossego

de quem não espera recado.

Essa sombra como é a alma

de quem já só por dentro se ilumina

e surpreende

e por fora é

apenas peso de ser tarde. Como é

amargo não poder guardar-te

em chão mais próximo do coração.



sexta-feira, outubro 25, 2024

envelheço com a nómada solidão


pernoitas em mim

e se por acaso te toco a memória... amas

ou finges morrer


pressinto o aroma luminoso dos fogos

escuto o rumor da terra molhada

a fala queimada das estrelas


é noite ainda

o corpo ausente instala-se vagarosamente

envelheço com a nómada solidão das aves


já não possuo a brancura oculta das palavras

e nenhum lume irrompe para beberes




quinta-feira, outubro 17, 2024

A alegria é sempre distraída.

 

Não acredito em deus nem em gnomos 

Mas no amor total sem meios termos. 

Nunca entendi direito o que nos fomos 

Mas isso não nos impediu de sermos. 

0 amor não precisa de mil tomos 

Ou contratos enormes para lermos. 

Não definimos bem o que nos somos 

Mas isso não nos impediu de sermos. 

Fui feliz muitas vezes nessa vida, 

Todas elas fui pego de surpresa. 

A alegria e sempre distraída. 

Felicidade nunca e corn certeza. 

For nao saber quando e que te vena, 

Quis te ver nessa vida todo dia.

quarta-feira, outubro 16, 2024

quarta-feira, outubro 09, 2024

E por falar em paixão.


E por falar em saudade 

Onde anda você 

Onde andam os seus olhos 

Que a gente não vê 

Onde anda esse corpo 

Que me deixou morto 

De tanto prazer 

E por falar em beleza 

Onde anda a canção 

Que se ouvia na noite 

Dos bares de então 

Onde a gente ficava 

Onde a gente se amava 

Em total solidão 

Hoje eu saio na noite vazia 

Numa boemia sem razão de ser 

Na rotina dos bares 

Que apesar dos pesares 

Me trazem você 

E por falar em paixão 

Em razão de viver 

Você bem que podia me aparecer 

Nesses mesmos lugares 

Na noite, nos bares 

Onde anda você

     

terça-feira, setembro 17, 2024

Sorriso.

 "Amo a violência com que seu sorriso destrói minha rotina.”


segunda-feira, setembro 16, 2024

Mais um Verão que passou.


Mais um ano na pele queimada do Sol abrasador que faz transpirar os sentidos e das noites que nos arrepiam a alma e nos fazem sonharcom as estrelas.

As semanas do meu Verão são medidas aos Domingos. As regueifas quentes que se lambuzam com manteiga aos Domingos de manhã são o agridoce sabor do saber que mais uma semana terminou e que já lá vem outra em velocidade de cruzeiro, como que a avisar para aproveitarmos tudo porque o tempo não perdoa.

No Verão, conheço os dias pelas festas e romarias que se anunciam em estridentes altifalantes e me trazem as memórias de um tempo feliz dos bailaricos, quando estava do outro lado do palco, a tentar musicar a vida e o tempo que não volta.

As horas, no meu Verão, contam-se pelas vezes que nos sentamos à mesa a comer, beber, arrastados pela (pouca) fome mas muita gulatraçada a gomos de tomate em sal e na tradução do palato em recordações da infãncia e da juventude. O sabor dos figos, dos pêssegos e das primeiras (poucas) uvas de mesa deste Douro maravilhoso são intemporais.

Também o meu amor (Te ) resiste no tempo e no espaço e na memória



segunda-feira, julho 22, 2024

Como as nuvens lentas do Outono.

 As confidências demoram-se no céu da boca

como as nuvens lentas do Outono. Sopro-as,

para que o céu se limpe e apenas uma névoa vaga

se cole ao que me queres dizer; mas

encostas-me os lábios ao ouvido e tu, sim,

é que me contas que céu é este, e de onde

vêm as nuvens que o cobrem. Sentimentos,

emoções, paixões, interpõem-se entre

cada frase. Nem há outros assuntos

quando nos encontramos, e me começas a falar,

como se fosse o coração a única

fonte do que dizemos.


quarta-feira, julho 17, 2024

A intenção de mim és tu.

 Tenho a sede das ilhas

e esquece-me ser terra

meu amor, aconchega-me

meu amor, mareja-me

Depois, não

me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar

a intenção de mim és tu.





terça-feira, julho 16, 2024

Deixa-me ser feliz.

 

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,

E que nele posso navegar sem rumo,

Não respondas

Às urgentes perguntas

Que te fiz.

Deixa-me ser feliz

Assim,

Já tão longe de ti, como de mim.

quinta-feira, julho 04, 2024

Para que a tua ausência não embacie o vidro da memória.

Volta até mim no silêncio da noite a tua voz que eu amo, e as tuas palavras que eu não esqueço. Volta até mim para que a tua ausência não embacie o vidro da memória, nem o transforme no espelho baço dos meus olhos. Volta com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário vestido com a mortalha da névoa; e traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam."



quarta-feira, junho 12, 2024

Arrependimentos inesperados.

 Hoje estava à tua espera

 e não vieste.

 E sei bem o que significa a tua ausência, 

a tua ausência que alvoroçava

 o vazio que deixaste, 

como uma estrela. 

Dizes que não me queres amar. 

Como uma tempestade de verão

 que se anuncia e depois se afasta,

 assim te negaste à minha sede.

 O amor, ao nascer,

 tem destes arrependimentos inesperados. 

Em silêncio

 nos entendemos. 


 Amor, amor, como sempre, 

quisera cobrir-te de flores e de insultos 


quinta-feira, junho 06, 2024

Todas as palavras falam desse lume.

É quando a chuva cai,

é quando olhado devagar que brilha o corpo.

Para dizê-lo a boca é muito pouco,

era preciso que também as mãos vissem esse brilho,

dele fizessem não só a música, mas a casa.

Todas as palavras falam desse lume,

sabem à pele dessa luz molhada.




terça-feira, maio 21, 2024

Tu: a primavera luminosa da minha expectativa.

 Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que

me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a

manhã da minha noite. É verdade que te podia

dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas

não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos

apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me

a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,

até sermos um apenas no amor que nos une,

contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:

ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua

voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo

esse que mal corria quando por ele passámos,

subindo a margem em que descobri o sentido

de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo

que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,

de chegar antes de ti para te ver chegar: com

a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água

fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa,

a mais certa certeza de que gosto de ti, como

gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

sexta-feira, maio 17, 2024

Amei demais.

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 

todas as coisas que na vida eu emprenhei. 

Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 

como as tais coisas nas quais nunca pensei. 


Demais foram as sombras. Mais e mais. 

Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 

do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 

de onde parti sem saber por que embarquei. 


Amei demais. Sempre demais. E o que dei 

está espalhado pelos sítios onde vais 

e pelos anos longos, longos, que passei 


à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 

E os milhares de versos que rasguei 

antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

quarta-feira, maio 08, 2024

Fazem falta.

Fazem falta os poetas. 

Fazem falta ao Mundo, cada dia mais, por conta de todos os retrocessos que tentamos desastradamente combater. 

Fazem falta os poetas, mais pela dor que espelham nas escolhidas palavras do que pelo amor que delas emana, já que a tristeza, a ausência e a saudade precisam de eco para as aceitarmos dentro de nós com a paz e a sabedoria necessárias.

Fazem falta os poetas porque a sua linguagem encriptada estimula a imaginação e as suas metáforas subtis e inesperadas abrem janelas desconhecidas no pensamento.(...)

O amor ilumina a existência e também cega, por toda a luz que emana, providencial motor da existência e passaporte para o tal ideal de eternidade que o coração humano tanto anseia alcançar.

terça-feira, maio 07, 2024

Voa.

 "Levanta ao menos a cabeça, desprende o olhar, os dedos cativos abraça-me.

Abraça-me outra vez, como naquela manhã de assombro em que reencontrámos
o tempo e, ousados, corremos para o mar."

segunda-feira, maio 06, 2024

Pedir-te que me olhes.

Pedir-te a sensação

a água

o travo

aquele odor antigo

de uma parede

branca

Pedir-te da vertigem

a certeza

que tens nos olhos

quando me desejas

Pedir-te sobre a mão

a boca inchada

um rasto de saliva

na garganta

pedir-te que me dispas

e me deites

de borco e os meus seios

na tua cara

Pedir-te que me olhes

e me aceites

me percorras

me invadas

me pressintas

Pedir-te que me peças

que te queira

no separar das horas

sobre a língua

quinta-feira, abril 11, 2024

Senão em ti.

“Em quem pensar, agora, senão em ti? 

Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, 

e trouxeste a manhã da minha noite.”

segunda-feira, abril 08, 2024

Somos felizes.

“Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. 

Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comendo, quando compras a TV Guia sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos italianos da Mafia.

Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio, assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol e voltamos para Almada à noite, com o jantar que a tua mãe nos deu numa marmita embrulhada no Record, a tempo de assistir às perguntas sobre factos e personalidades, do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.

Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andámos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo

-Veja-me lá isso Antunes

de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa, o Dionísio espantado

-Deste em cónego ou quê?

e eu, envergonhado, a abotoar o colarinho

-É uma coisa chinesa para o reumatismo a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto

e como nas Finanças se respeita o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.

Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, o que não vai lá abaixo fica à janela, a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis como ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.

Somos felizes. Por isso não me preocupei no sábado com o animal muito entretido na praceta e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a andar devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa nem pinturas nem a fotografia do teu pai nem nada.

Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou a saber porque é que não fomos ao Feijó e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que não te foste embora visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um microondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera.”


segunda-feira, abril 01, 2024

Onde não vive o adeus.


Não é apenas um vago, modulado sentimento

O que me faz cantar enormemente

A memória de nós. É mais. É como um sopro

De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso

É como se a despedida se fizesse o gozo

De saber

Que há no teu todo e no meu um espaço

Oloroso, onde não vive o adeus

segunda-feira, março 25, 2024

Ouvir a tua voz.

“Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando não te vejo

ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios

mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, 

subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, 

para ganhar o tempo que o tempo nos rouba.”

terça-feira, março 19, 2024

E ninguém o compreende.

Quanto mais urgente é a escrita

Mais humilde o suporte.

Tudo o que realmente importa

foi escrito

em bilhetes de autocarro,

guardanapos quase translúcidos,

versos de sobrescritos,

pacotes de pastilha elástica.

E ninguém o compreende

porque quanto mais urgente

a escrita

mais ilegível a letra.

segunda-feira, março 18, 2024

Movimentos líricos da alma.

 “Quem de nós não sonhou, em dias de ambição, com o milagre de uma prosa poética, musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e variada para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações da fantasia, aos sobressaltos da consciência?” 

quarta-feira, março 13, 2024

Teoria.

Toda a teoria

sobre a

memória

implica uma

pressuposição

sobre o ser do

passado


terça-feira, março 05, 2024

Nenhuma água chega.

Tacteio à minha

volta

e é só fulgor

Tento deslumbrar

o sol que cega


Demoro-me demasiado

no calor

Para a minha sede

nenhuma água chega

sexta-feira, março 01, 2024

O amor nunca acaba.

Quando se chega ao final

dessa vida perfeita

que um dia foi feita pra nós?


Eu não esperava

ver o fim num começo

o tempo do avesso


E se não há mais nada, não há mais nada a fazer

tenho a alma rasgada, mas sei que será

pelo melhor


Por isso vou

Rumo ao vazio

e ao que a vida ainda tem para me dar

É o que sou

E hei-de insistir

Que o amor nunca acaba

só dorme p’ra outro nascer


Quando esta noite passar

Coração imperfeito

já estará refeito


e a dor

essa palavra

voará sobre nós

mais fortes que sós.


E se não há mais nada

Nada se pode perder

tenho a alma rasgada, mas sei que será

pelo melhor….


Por isso vou

Rumo ao vazio

e ao que a vida ainda tem para me dar


É o que sou

E hei-de insistir

Que o amor nunca acaba

só dorme p’ra outro nascer

quarta-feira, fevereiro 28, 2024

Desamar, amando.

Parabéns Tinhosa. 


Livra-me de ti. Que eu reconstrua 

Meus pequenos amores. A ciência 

De me deixar amar 

Sem amargura. E que me dêem 

A enorme incoerência 

De desamar, amando. E te lembrando 


— Fazedor de desgosto — 

Que eu te esqueça.



quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Quem, digo eu, pode ser mais vulnerável a ti?

 Eu digo do amor não mais que a sombra.

Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz

aos dedos que tremem só de aflorar

o que da carne é já incorruptível saber

e crispação sem causa natural.

São nossas inimigas as cortinas

amplas do verão, os fumos e vapores

que esta terra nos devolve, a fria

repercussão do espírito que treme

sobre um tão ausente e despossuído mundo.

Disse-te que voltasses devagar os teus olhos

para o mecanismo simples da erosão.

Eu parti há muito e neste quarto

apenas aguardo o relâmpago surdo do teu corpo,

a contenção muda e não menos esplendorosa

da carne recordada e pressentida.

No entanto, deixámos escurecer

excessivamente o mundo. Ele acolhe-se

a nós, com terror e evidência,

e nós, em verdade, que podemos dizer?

Eu digo do amor não mais que a sombra,

mas o teu rosto e a luz nada pode conter.


Sim, o coração, as estiradas asas

de uma frase que deixaste perder,

de um viés de silêncio. Recordas,

muito a pesar teu, a sombra que te continha

os passos naquela noite, a larga

respiração das palavras contra o corpo adormecido.

As frases surgiram, como do fundo falso de uma fábula,

e criavam ecos, reverberações do silêncio na fala

mais vulnerável e tangível. Ela dormia

contra a sua própria carne. Tu nunca falaste

do desejo: adormecia o tempo entre as pedras

e o outono. Tu falavas da meseta, do peso dos rios

(gelados no inverno e os pássaros ausentes), tu eras

simultâneo tradutor do tempo e da memória. Ela dormia,

respirava as estrelas, tu já nada tinhas

para lhe dar. Tu apenas erravas entre o coração e os rios.

Sim, o coração, as estiradas asas

de uma morte mais próxima do que todos os frios.


Porque é tão ansiosamente que espero por ti?

Sabias ocultar entre os teus menores movimentos

a lembrança de um corpo e de um ardor sem música

nem esquecimento possível. Quantas cidades

atravessámos, quantos «grandes são os desertos e tudo é

deserto»,

quanto alimento para os cães da memória! Deixa-os,

consente o esquecimento, solta com raiva das tuas veias

a música, regressa ao lugar donde partiste. Peço-te,

regressa. Nós nunca acordamos conformes,

nenhuma cifra nos devolverá o número mágico,

vestimo-nos sem convicção e pedimos emprestadas

fórmulas antigas. Da nossa idade

guardámos alguns emblemas, alguns maneirismos.

Acredita-me: é o momento de nos abandonarmos

à necessidade, de açularmos os cães, de sermos nós mesmos

um inquietante rosnido entre as frestas do muro.

Regressemos, não há Ítaca possível, os corpos desfizemo-los

na mesma erosão do seu mágico movimento.

Porque é tão ansiosamente que espero por ti

se nenhuma luz mais cabe no terror de mim?


Tudo o que ignoras é um sabor

esquivo e indómito, acercando-se

a ti entre as brechas singulares da noite

e o esquecimento dos nomes. Quantas dores

atravessam o fio das palavras, o sentimento

agudo de um vazio entre delírio e delírio, a

esquiva velocidade do amor! O que sabemos

não está oculto no intervalo das marés

nem dorme no que eu digo do teu corpo.

Tudo o que ignoras é um sabor

suspenso dos teus lábios, ou tão-só

inquieto sentir entre a carne e o amor.


Quando começámos a saber da corrupção

das palavras no tempo, quando foi que medimos

o declínio do amor, sua gentil

degradação nos signos mais evidentes e molestos?

Face ao silêncio que nós guardamos,

hoje é a tua ausência a chamar-me

em fluente reiteração. Que orvalho

cingiu o nosso durar, que sinais mais ambíguos

poderíamos ter deixado? A música, por vezes.

Mas quase sempre era sobre a terra esse intenso ruído do

amor,

as ceifadas do desejo, as núpcias do acaso e da invenção,

e nem sob o carro do feno lográvamos encontrar repouso.

As estações rodavam e um momento calámos

de saber demais tudo o que perdíamos.

A ironia tornou-nos por demais presentes:

quando começámos a saber da corrupção

do amor nos seus indícios mais trementes?


Nenhuma coisa, digo eu, pode ser mais vulnerável

à noite e às lágrimas. Sou vulnerável a ti

como o cervo antes da caça, como a persistência

das colheitas sob o sol. Onde ardem

as mudanças das estações, onde germina o lume,

aí me disponho às estrelas, aí recolho os tributos.

Que demorado luto rege agora os nossos protocolos!

Tivemos que nos acomodar a ritos e fórmulas

despidos de qualquer consagração.

Eu recordo as cerimónias breves do verão,

o adensar do outono, a prossecução da primavera.

Quem, digo eu, pode ser mais vulnerável a ti

do que um corpo que ainda treme do esquecimento de si?

terça-feira, janeiro 16, 2024

Que curso ao nosso descer o rio?

 

Tudo o que dizemos e fazemos

passa por esses momentos violentos do corpo,

onde os desejos vêm beber como os animais cansados

chegam aos grandes rios originários das nossas fundações.

Que memória consentir então aos corpos,

que lugar deserto às paixões, que curso

ao nosso descer o rio?

Tu não me respondes. Entramos no mais fundo

da pedra, no túmulo preterido, espólio

de um deus acossado, eu estrangeiro, eu esquecido.

Tu ocultas o coração, voltas-te de perfil

para as dunas, a pedra, pedra.

Não me respondes.

Como o coração, dizes.

quinta-feira, janeiro 11, 2024

Não soube ver este fim.

https://www.youtube.com/watch?v=8eqBkiuHDN0&list=RDEM-JOplmwgLdJIO1BBZuy8wQ&index=27 


Antes que digas adeus, 

Vou-te dizer isto assim

P'ra o caso de te não ver.

Os meus olhos são os teus,

Não soube ver este fim

E o que for, há de doer.

Antes que partas de vez, 

Meu amor ouve com calma, 

Meu chão, meu porto de abrigo. 

Fugires de mim é talvez, 

Mais do que doer-me a alma, 

Levares metade contigo. 

Eu nunca fui de ceder

E o meu orgulho chegou

Sempre primeiro do que eu. 

Deu todo o amor a perder

E o que do amor me sobrou

Guardei aqui e é só meu. 

Mas se for este o caminho, 

Foi por falta de cuidado

Não há leis na despedida. 

Sei que vais seguir sozinho,

E eu vou sonhar-te a meu lado

P’ro resto da minha vida.