sexta-feira, dezembro 12, 2025

Palavras apenas.

Tento lavrar o silêncio nas paisagens que os meus olhos recolhem, todos os dias.

São paisagens tristes, cheias de vazios que perderam o sentido. São lugares do mundo que, às vezes, moram em casas onde vive o medo, a violência, a angustia, o desencanto.

Procuro-o no azul-azul do mar que me sossega, quando a tarde cal e a noite ainda não vem; procuro-o nas igrejas vazias que se abrem à sombra dos dias de vero; procuro-o nos versos dos poetas que falam da minha inquietação; procuro-o nas fronteiras dos dias, quando me benzo e me entrego a Quem é dono do (meu) Tempo. Procuro-o nas pinturas quecontemplo e me falam de esperança. Procuro-o em mim, nos momentos em que me permito parar para acolher a vida

 Sempre que o perco, perco-me também.

Sempre que o encontro, planto-o de novo. Sei que ele me ajudará a curar as cicatrizes da terra rasgada de seca; sei que ele me ajudara a enfrentar o horizonte que não domino e o futuro que não conheço. Sei que ele será meu companheiro de ruido, daquele que me quer embriagar de medo e de desencanto. Sei que ele me ensinara a comover-me, a soletrar, outra vez, as palavras do tempo da inocência: mãe, mão, pai, pão.

E fixo, atenta, o desaguar da luz, para me obrigar a guardá-la dentro do peito. Preciso dela nas horas basálticas das indecisões. Preciso da luz que o silêncio me traz, como se o silêncio fosse a fonte do poema ou o traço primeiro do pintor. Preciso dela para acender a escuridão das noites subterrâneas que fazem tremer as paisagens dos nossos olhos.

Preciso de silêncio.

Precisamos todos da luz que o silêncio traz

sexta-feira, dezembro 05, 2025

Poema de dezembro

Teu corpo criará raízes no meu pensamento.


Eu te espio de perto

Querendo apagar o teu rosto com a mão.

Ando mais depressa que o teu desejo.


És bela

De uma juventude que arrisca as horas maduras.

À tarde, o verão agrava-te a beleza.


Nós adoramos a praia e ficamos eternos.

sexta-feira, novembro 14, 2025

Quase nada.

É tanta a rouquidão das aves

nesta áspera noite. Tão sinuoso

o céu, tão amargo o roçar

das asas no choro do vento.

Queimei toda a água

dos meus olhos à força

de te chamar. Perdi a voz

e quase todas as penas.

Voo cega e sem norte.

Tenho frio e desconheço

se me procuras ou se me esperas.

Voo triste. Exausta.

Quase morta. Tão fria.

A crescer para ser

pedra. Quase queda.

Quase nada.

segunda-feira, outubro 20, 2025

Entre as ruínas e os reinícios.

Há relógios que não marcam o tempo,

apenas o esvaziam

Tens sentido isso também, não tens?

Essa leveza que afinal pesa -

o intervalo entre o gesto e o arrependimento,

entre o toque e o adeus

Fomos feitos de futuros que não aconteceram,

de respostas pensadas tarde demais,

de sorrisos que não se abriam no momento certo

Vivemos entre linhas por escrever,

entre portas que se abriram

apenas para revelar outras barreiras

Dizem que o tempo cura

Mas esquecem de dizer

que ele também rouba

Leva rostos que amámos,

cheiros que nos aconchegavam,

nomes que já não reconhecem o eco da nossa voz

E, ainda assim, caminhamos

Com passos gastos

mas olhos que procuram o que resta:

um toque inesperado,

um banco de jardim onde alguém ainda espera,

um raio de luz entre dois edifícios cansados

Talvez nunca tenhamos sido quem queríamos ser

Mas fomos quem conseguimos,

e isso - agora percebo - também tem dignidade

Há beleza em saber que o tempo não volta

Porque nos força a viver

A viver de verdade

Sem ensaio

Sem salvaguarda

A dizer hoje,

mesmo sem saber se há depois

E se algum dia

me perguntarem quem fui,

espero que não me definam pelos fracassos,

nem pelos triunfos

Mas por ter procurado permanecer inteiro

entre as ruínas e os reinícios

Por ter aprendido

a arte secreta de continuar

mesmo com os ponteiros partidos


sexta-feira, outubro 17, 2025

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:

sabe a lua-de-água

ao amanhecer,

sabe a cal molhada,

sabe a luz mordida,

sabe a brisa nua,

ao sangue dos rios,

sabe a rosa louca,


ao cair da noite

sabe a pedra amarga,

sabe à minha boca.



segunda-feira, outubro 13, 2025

De outra maneira não te quereria.

Quero ficar contigo por dentro de ti até o tempo se cansar de ser tempo, os corpos desmaiados, a tua mão esquerda devagar a abrir-se e a fechar-se, inteira. Quem te perde, julgando que lhe pertencias, insiste em andar sobre os passeios como se sem ti pudesse encontrar um lugar para dormir e, depois de encontrar, adormecer. Não pretendo que ninguém me vá salvar de todos os evitáveis desastres, por isso amo a tua mais íntima confusão, a tua insondável solidão, a tua inabalável vontade em te tornares para sempre invisível. Amo o teu cheiro mais intenso, a tua ferida aberta, o teu sangue a correr no coração da lua. Sou muitos, a isso me obrigas, cada qual com seu desejo onde não há partida e chegada. Só assim posso ser um, para poder ser outro, e que nunca te canses de mim. Só assim posso percorrer, palmo a palmo, o teu corpo e tocar-lhe, uma vez de cada vez, por entre uma nuvem de beijos. Abre a tua boca e deixa-a ficar aberta. Abre os teus ouvidos e deixa-os colher a minha respiração aflita. Abre os teus cabelos e deixa-os ficar assim, o teu sexo escondido sob a palma da minha mão.
De ti quero tudo. Sobretudo não esqueças o que não te digo. 
O que calo apenas a nós pertence e não pode ser revelado.
Ninguém compreende, de outra maneira não te quereria.





quinta-feira, outubro 09, 2025

Tem urgência, medo de encanto quebrado.

Meu amor é assim, sem nenhum pudor.

Quando aperta eu grito da janela

— ouve quem estiver passando —

ô fulano, vem depressa.

Tem urgência, medo de encanto quebrado,

é duro como osso duro.

Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:

quero é dormir com você, alisar seu cabelo,

espremer de suas costas as montanhas pequenininhas

de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.

Pouca gente gosta.

quarta-feira, outubro 08, 2025

Solitários, os rios adoecem.

 "Que um rio só é eterno porque vive de outras águas. Solitários, os rios adoecem."


sexta-feira, outubro 03, 2025

Não te espantes com o silêncio.

Faz no próximo mês meio século que nos enlaçámos na conservatória de Almada tu, esperta até ao evidente, levaste um vestido de noiva emprestado, um trapo de ocasião que só serve uma vez na vida; eu, o tolo de serviço, quis gastar o que não tinha e mandei fazer um fato de veludo cinzento, caro, que me ficou curto nas mangas e parecia que tinha sido emprestado.

Ontem, ao jantar, entre o enfado e a repulsa, disseste que íamos chegar, finalmente, às bodas de Inferno; ainda falta um mês, e tu olhas para mim como uma mobília que queres manter sem uso ou beleza até à cova; pois então, não te espantes amanhã quando acordares e eu já cá não estiver. Não te direi «vou comprar tabaco» - sabes que deixei de fumar há mais de dez anos quando soube que a nossa filha nos ia fazer avós, e eu queria ter pulmões para ver o meu neto numa ascensão de árvore ao longo dos anos, tão mais interessante do que o nosso murchar.

Não te espantes com o silêncio quando deixares de ouvir o enervante roer de maçãs, o ruído da minha existência, nem com o sossego das noites sem o roncar que te roubava horas de sonhos, e, sobretudo, não te admires quando ouvires dizer que tenho outra rapariga mais bonita que está disposta a namorar comigo, mesmo eu sendo velho e com pouco na conta poupança-reforma.

Queres saber? Mesmo que não queiras, vou contar - conhecemo-nos no centro de saúde no Fogueteiro; eu ia para uma consulta de rotina, ela tinha caído e vinha mudar o penso na perna. Começámos a conversar porque lhe cedi o meu lugar, e ela, «que não era preciso, mas agradecia». Começámos a conversar porque o médico estava atrasado, «num engarrafamento infernal do outro lado da ponte», anunciou a enfermeira ao grupo de velhos que enchia a sala de espera com suspiros, ais, reclamações pequeninas e grandes.

Começámos a falar porque esta moça - da mesma idade que nós - viu em mim um gesto cavalheiro e começou a falar da sua vida, com uma discrição e elegância que só reconhecia dos filmes; contigo foi sempre tudo às três pancadas, tudo à bruta, como se fôssemos desde sempre da mesma família, quando eu nunca fui da tua família, tivemos dois filhos e partilhámos uma casa quase cinquenta anos, mas hoje, olho para ti e vejo uma velha que me lembra a tua mãe e não a rapariga grosseira mas bonita, como uma estrela do cinema italiano.

 Depois da consulta convidei-a para almoçar no senhor Américo e apaixonei-me quando a vi sorrir entre colheradas do doce da casa, sem vergonha de ser feliz à minha frente, foi como se a alegria dela me trespassasse, e eu sei que tu também deves ser feliz às escondidas, mas eu já não me lembro como é.

 Depois a nossa filha disse-me que não atendias o telefone — vinte chamadas —, e eu, inquieto como um criminoso que ainda sente carinho por quem roubou, pus-me a caminho da nossa casa com a chave entre os dedos, pronto a descodificar o mistério do teu silêncio. E vi-te então na cozinha, vestida de noiva, o mesmo vestido que usaste há cinquenta anos e que disseste ter sido emprestado, a cortar legumes para a Juliana — que mais ninguém faz como tu —, sorriste com esses dentes que continuam direitos e branquinhos, e foste querida, como eu não me lembrava de alguma vez teres sido. «Diz-me lá, António, o que seria a tua vida sem mim?» De maneira que não te cheguei a falar da moça do centro de saúde.


segunda-feira, setembro 29, 2025

Uma língua que se extingue.

Entre tantas coisas numa separação 

é também uma língua que se extingue.

sexta-feira, setembro 26, 2025

Despeço-me de mim, meu amor.

Agora que o orvalho dos teus silêncios

se estendeu sobre a folhagem rubra

no ardor desta terra de ninguém,

despeço-me de mim, meu amor.


Sei que a manhã continuará com danças

a seduzir a tua boca, flor

do meu arrebatamento. No meu lugar.

Como chão aberto às sementes de mim,

vem beber a nocturna nudez das uvas.

quinta-feira, setembro 25, 2025

É longa a cura.

Às vezes, é longa a cura

Até o estágio de não sentir mais nada, 

E não mais recair ao se encontrar 

Em um lugar de onde já se partiu.

terça-feira, setembro 23, 2025

Hei-de continuar a trazer-te no sangue.

Apaga-me os olhos: posso ainda ver-te 

tranca-me os ouvidos, posso ainda ouvir-te 

e sem pés posso ainda andar para ti 

e sem boca posso ainda invocar-te. 

Quebra-me os braços e posso apertar-te 

com o coração como com a mão

 tapa-me o coração e o cérebro baterão

e se me deitares fogo ao cérebro

hei-de continuar a trazer-te no sangue. 

"(...) Não sabemos se ela o esqueceu, o certo é que ele a terá amado até ao fim da vida, talvez por a ter tido e depois a ter perdido, não como amiga, mas como corpo e paixão. A amizade distante é um magro consolo para quem já teve tudo. Talvez aquilo que já tivemos e que perdemos seja a fonte de uma imensa tragédia pessoal."


segunda-feira, setembro 22, 2025

A iluminar o fim.

Às vezes, sabes, é mais

difícil descobrir que o amor, como o cigarro,

quando se acende é que começa

a iluminar o fim.

quinta-feira, setembro 18, 2025

Limpo os minutos que esqueceste no fundo do prato.

 Levanto a mesa, dobro a toalha de algodão bordada a ponto-cruz,

deixo as migalhas de pão na fronha, o doce de amora no armário.

Verto para a pia um resto de café e limpo os minutos que esqueceste no

fundo do prato, húmidos ainda como sementes de melancia. Depois

deito umas gotas de detergente na água, e a água cresce como uma

esponja quente sob as mãos ainda trémulas. E então esfrego os pratos,

e os minutos, e o vestido oloroso das violetas, como quem recita de cor

palavras de antigos sortilégios. Até que desapareces dos detalhes e é

possível respirar de novo sem me ferir inadvertidamente no ar. 

quarta-feira, setembro 17, 2025

Melhor é ser.

Enquanto eu fiquei alegre,

permaneceram um bule azul com um descascado no bico,

uma garrafa de pimenta pelo meio,

um latido e um céu limpidíssimo

com recém-feitas estrelas.

Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,

constituindo o mundo pra mim, anteparo

para o que foi um acometimento:

súbito é bom ter um corpo pra rir

e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo

alegre do que triste. Melhor é ser.

segunda-feira, setembro 15, 2025

um rio se vai aguando até ser mar.


demoras

mesmo quando chegas antes.

Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida

e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas

já não sou senão saudade

e as flores

tombam-me dos braços

para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar

em que te aguardo,

só me resta água no lábio

para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,

tomo a lua por minha boca

e a noite, já sem voz

se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba

e é uma nuvem.

O teu corpo se deita no meu,

um rio se vai aguando até ser mar.


quinta-feira, setembro 11, 2025

O que quiseres.


Se nesta vida não for

Será nesta vida.

Virás de qualquer forma

Em forma de ti.

Chamarás

E o meu nome será

O que quiseres.

terça-feira, setembro 09, 2025

Muito se passou entre nós.

 MATINAS


Tal como com as bétulas, assim é contigo:

não devo falar-te

de modo pessoal. Muito

se passou entre nós. Ou

foi só comigo

que se passou? É minha

a culpa, minha. Pedi-te

humanidade - não necessito menos

do que os outros. Mas a ausência

de qualquer sentimento, do mais pequeno

gesto de cuidado por mim - mais me valia continuar

a dirigir-me às bétulas,

como na minha vida anterior: que me façam

o pior, que me

enterrem com os românticos,

que as suas folhas amarelas e afiadas

tombem sobre mim e me cubram.





terça-feira, setembro 02, 2025

E a qualquer hora o amor acaba.

Sim, o amor acaba. Onde? Quando? Como? Numa esquina, por exemplo, num domingo de

lua nova, depois de teatro e silêncio; e acaba também em cafés engordurados, diferentes dos

parques dourados onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de

raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinza o

escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada a uma última

alegria, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos

saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos

soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e

acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e

monótonos espelhos paralelos; e no olhar do eterno cavaleiro errante que passou pela

pensão; às vezes acaba o amor nos braços crucificados de Jesus, filho torturado e

compadecido de todas as mulheres; no elevador, mecanicamente, como se lhe faltasse

energia; no andar diferente da irmã dentro da casa o amor pode acabar; na epifania da

pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas;

quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra

coisa, o amor pode acabar; no telefone, onde tantas vezes o amor começa, o amor acaba; na

compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à

beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas não

floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores;

em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto

que desejo; e o amor acaba na simples poeira que vertem os crepúsculos, caindo

imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos

roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada;

em cavernas de sala e quarto conjugados o amor acaba; em Brasília o amor pode virar pó; no

Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou

depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada

fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque,

diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre

astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e

quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em

todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que

cobre o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é

simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que permanece reverberando sem

razão, até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse

melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou

articulada, e acaba o amor; na vaidade; no álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração

da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em

todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; para recomeçar em todos os

lugares e a qualquer hora o amor acaba.

quarta-feira, agosto 27, 2025

A tua ausência dói-me.

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua

ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não

magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,

por isso, de deixar alguns sinais - um peso

nos olhos, no lugar da tua imagem, e

um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes

tivessem roubado o tacto. São estas as formas

do amor, podia dizer-te; e acrescentar que

as coisas simples também podem ser complicadas,

quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.

Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a

realidade aproxima-me de ti, agora que

os dias correm mais depressa, e as palavras

ficam presas numa refração de instantes,

quando a tua voz me chama de dentro de

mim - e me faz responder-te uma coisa simples,

como dizer que a tua ausência me dói.


terça-feira, julho 22, 2025

Esta manhã acordei e pensei em ti.

“Esta manhã acordei e pensei em ti. Lembro-me de como eras quando te vi pela primeira vez e de como mudaste desde então. Lembro-me de tudo o que fizeste por mim, de tudo o que me deste. Lembro-me também do que fizemos juntos, e de tudo o que me ensinaste, lentamente, com paciência, com carinho.

Agora olho para mim mesma e pergunto-me o que sou sem ti. E se tudo o que fiz foi realmente feito por mim, ou por ti. Se tudo o que penso é pensamento meu, ou pensamento teu. Não sei. Sei apenas que, se não estivesse contigo, a minha vida seria diferente — pior, certamente.

E mesmo que um dia deixemos de nos amar, mesmo que um dia o nosso amor se apague, sei que nunca deixarei de te agradecer por tudo o que me fizeste ser.”

terça-feira, julho 15, 2025

Murmúrios.

Felicidade

é abrir-te devagar como uma porta

rangendo murmúrios...

para o meu corpo entrar.

E depois, depois voltar a fecha-la atrás de mim

e caminhar em ti em ritmos certos

para que os meus passos se confundam com o

bater do coração.

E depois, depois semear em ti trigo novo

e soltar papoilas nuas da minha boca

para que se misturem com o teu sangue

 

 


quarta-feira, junho 25, 2025

ao ver-me de ti cativo

 Chegas como um rumor de bosque verde

e nem sei que plenitude me envolve

que dúvidas mágoas incertezas apagas

uma luz intensa acordas e parece que vai amanhecer

Chegas e é manhã a erguer-se no horizonte

riscada de pássaros e de sopros vivos

e não há lugar que não brilhe florido

como imagem perfeita do Paraíso

Chegas e a terra é pequena para albergar o júbilo

que do céu se derrama ao ver-me de ti cativo

segunda-feira, junho 16, 2025

o teu sabor

Situando-te no meio

desta frase

que equilibra morna

de saliva

distingo a cor do verão

entre este inverno que é o teu sabor

na minha língua


sexta-feira, junho 06, 2025

agora, apenas um sopro.

O amor, esse sufoco,

agora a pouco era muito,

agora, apenas um sopro.

Ah, troço de louco,

corações trocando rosas,

e socos.


terça-feira, maio 27, 2025

A memória é uma pedra esculpida em silêncio.

A memória não é uma câmara de munições perdidas

ou uma matriz de caracteres catalogados por

exclusão ou defeito ou pela soma destes

a memória é um processo e um espelho do

esquecimento

quando os planos se sucedem em áspero e espesso

desgosto

mas é também focagem suave nas secções em que a

consciência

se abriu atravessando o tempo pleno e duradouro.

A memória é uma pedra esculpida em silêncio.

sexta-feira, maio 23, 2025

Não entres docilmente nessa noite serena.

Não entres docilmente nessa noite serena,

porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;

odeia, odeia

a luz que começa

a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,

porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles

não entram docilmente nessa noite serena


quinta-feira, maio 22, 2025

apenas água de alegria

 «[...] corre uma paz imensa sobre o teu rosto molhado de luz. Os nossos lábios

não se despegam. Gozámos ao mesmo tempo, exaustos, na afluência da dor, e

mantemos as pernas enredadas, sinto os teus peitos erguerem-se, respirando, o

teu púbis espesso contra o meu, os nossos líquidos escorrendo misturados. Tem

vontade de gritar, de chorar, de lhe beijar os olhos, as axilas, as plantas dos pés,

de a adorar ritualmente. Mas deixa-se ficar quieto, uma réstia de lua que entra

pela porta a esfriar-lhes os corpos docemente. Só a aperta mais e ela sorri: pode

ser um sopro de triunfo, uma promessa, uma jura ou apenas água de alegria.»

segunda-feira, maio 19, 2025

a iluminar o fim.

Às vezes, sabes, é mais

difícil descobrir que o amor, como o cigarro,

quando se acende é que começa

a iluminar o fim.

quarta-feira, maio 14, 2025

Quero o sumo dos teus lábios.

Rosa vibrante dos subterrâneos

de uma nova resistência

desabrochas

com a luz do dia

sempre ao meu lado

o rosto e o seio

irradiando

o fogo jovem da paixão

dá-me essa água

da felicidade

que nos teus olhos brilha

Quero o sumo dos teus lábios

Entrar no jardim do teu corpo

é o esplendor da vida.

quinta-feira, maio 08, 2025

Ela era o mar e eu o rio.

Ela era o mar e eu o rio que nele desembocava. Era uma estrela e eu outra que marchava em sua direção. Encontrávamo-nos e nos sentíamos mutuamente atraídos, permanecíamos juntos e girávamos felizes por toda a eternidade em círculos muito próximos e vibrantes, um ao redor do outro.


terça-feira, maio 06, 2025

Sem precisar de palavras.

Quero-te o suficiente para te convidar a pisar folhas secas em uma dessas tardes,

para caminhar ao teu lado, chutando pedrinhas enquanto falamos de amor.

Quero-te tanto que nos imagino rindo sem motivo,

olhos apertados, como crianças que descobriram o prazer da felicidade simples,

vagando sem pressa pelas ruas, embriagados de nada e de tudo ao mesmo tempo.

Quero-te o bastante para te levar aos meus refúgios secretos,

para te mostrar onde me sento e penso em ti,

para te dizer, sem precisar de palavras, que cada canto desse mundo tem um pouco de ti em mim.

Amo-te o suficiente para desejar que tua risada ecoe na minha noite,

para fazer do teu sorriso a minha morada,

para nunca — nunca — te deixar partir.

Amo-te como se ama certos amores:

à moda antiga, com a alma inteira, sem medidas, sem dúvidas, sem olhar para trás.


terça-feira, abril 22, 2025

Ternura de calafrio.

 Devia morrer-se de outra maneira.

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.

Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol

a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos

os amigos mais íntimos com um cartão de convite

para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica

a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje

às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos

escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir

à despedida.

Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,

numa lassidão de arrancar raízes...

(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )

a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se

em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...

como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono

ainda tocada por um vento de lábios azuis...



sexta-feira, abril 11, 2025

O vazio não exclui a intensidade.

Como são penetrantes as tardes de outono! Penetrantes até à dor! Há certas sensações deliciosas em que o vazio não exclui a intensidade. E não há ponta mais acerada que a do infinito.

Grande delícia, mergulhar os olhos na imensidão do céu e do mar! Solidão, silêncio, incomparável castidade do azul! Pequena vela a tremular no horizonte, cuja fraqueza e isolamento imitam minha irremediável existência. Melodia monótona das ondas. Todas essas coisas pensam por mim, ou eu penso por todas: na grandeza do sonho, o eu logo se perde! Pensam, repito, mas musical e pinturescamente, sem argúcias, sem silogismos, sem deduções.

Todavia, esses pensamentos, que partem de mim ou se precipitam das coisas, logo se tornam demasiado intensos. A energia na volúpia cria uma inquietude e um sofrimento positivos. Meus nervos, tensos demais, dão apenas vibrações agudas e dolorosas.

E agora a profundeza do céu me consterna; exaspera-me a sua limpidez. Revoltam-me a insensibilidade do mar, a imutabilidade do espetáculo… Ah! Será preciso sofrer eternamente, ou evitar eternamente o belo? Natureza, impiedosa feiticeira, rival sempre vitoriosa, deixa-me! Não tentes os meus desejos e o meu orgulho! A contemplação do belo é um combate em que o artista grita de pavor antes de ser vencido.



terça-feira, abril 08, 2025

E um dia sei que estarei mudo.

 Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.


Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.

quinta-feira, abril 03, 2025

Ausência de palavras.

 A certa altura da vida começamos a aprender

a esperar o tempo. A certa altura da vida o que

nos mata não são as horas. O que nos mata são

as palavras e a ausência de palavras.






terça-feira, abril 01, 2025

Quando acordam vazios.

 Entre a saliva e os sonhos há sempre

uma ferida de que não conseguimos

regressar


E uma noite a vida

começa a doer muito

e os espelhos donde as almas partiram

agarram-nos pelos ombros e murmuram

como são terríveis os olhos do amor

quando acordam vazios.









segunda-feira, março 31, 2025

A memória não é só o que ficou.


A memória é um lugar sem mapas, onde os instantes se dissolvem e se refazem ao toque do pensamento. Ela não segue regras, não obedece a lógicas lineares. É uma gaveta desorganizada, onde um cheiro pode abrir portas que julgávamos trancadas, onde uma música pode nos transportar para um tempo que já não nos pertence, mas que, de alguma forma, ainda nos habita.

Há lembranças que chegam suaves, como brisa de fim de tarde, e outras que explodem dentro de nós sem aviso, rearranjando tudo o que acreditávamos ser estável. Algumas, escolhemos guardar com carinho, como quem dobra cartas antigas e as esconde no fundo de uma caixa. Outras, gostaríamos de esquecer, mas insistem em nos acompanhar, sussurrando suas histórias no silêncio da noite.

A memória não é só o que ficou. É também o que reinventamos, o que vestimos de outras cores para que o passado se torne suportável, para que possamos seguir em frente sem o peso esmagador do que foi. Ela é moldável, feita tanto do real quanto do que imaginamos, um mosaico de sensações, afetos e lacunas.

E, no fim, somos feitos dela. Dos dias que guardamos, das pessoas que se tornaram parte de nós, das palavras que ecoam mesmo depois do tempo as levar. A memória é o que nos ancora e, ao mesmo tempo, nos permite voar – porque é nela que mora tudo o que já fomos e tudo o que ainda somos.

quarta-feira, março 26, 2025

se for preciso


Morrer de amor

ao pé da tua boca


Desfalecer

à pele

do sorriso


Sufocar

de prazer

com o teu corpo


Trocar tudo por ti

se for preciso

quarta-feira, março 19, 2025

com as mãos carregadas de passado

Venho

com as mãos carregadas

de passado

venho agora

porque não sei o dia

nem a hora

e dentro de mim o tempo

está parado

 

 

terça-feira, março 18, 2025

Espero sempre por ti o dia inteiro




Espero sempre por ti o dia inteiro,

Quando na praia sobe, de cinza e oiro,

O nevoeiro

E há em todas as coisas o agoiro

De uma fantástica vinda.



quinta-feira, março 06, 2025

estávamos tão próximos das despedidas

Nunca digas

«para sempre»

meu amor

como disseste uma vez

já nem te lembras


a manhã entrava

pela janela do quarto


estávamos tão próximos das despedidas


a luz era tanta

que ainda hoje

nos cega

quarta-feira, março 05, 2025

Não voltarei à fonte dos teus flancos.

Não voltarei à fonte dos teus flancos

ao fogo espesso do verão

a escorrer infatigável

dos espelhos, não voltarei.

Não voltarei ao leito breve

onde quebrámos uma a uma

todas as frágeis

hastes do amor.

Eis o outono: cresce a prumo.

Anoitecidas águas

em febre em fúria em fogo

arrastam-me para o fundo.



quarta-feira, fevereiro 26, 2025

Nunca afinal eu soube que eras tanto

 Nunca afinal eu soube

que eras tanto


nem que vinhas de noite

e eras tempo


Por isso te pergunto

já sem esperança


O que hei-de fazer

com um coração aceso?

segunda-feira, fevereiro 24, 2025

oceano náufrago

O teu corpo,  

deixou sem sal o mar.

Em mim restou  

um respirar de marés,   

oceano náufrago,   

afogadas sombras de água. 

Eis a praia  

em que estiveste deitada:  

não há areia  

que não desenhe o teu passo.

Descalço sobre o Sol  

sigo no encalço do que nunca será antigo. 

De quem fui onda,  

sou agora espuma,  

búzio seco,  

lembrança de viagem nenhuma.

A lágrima e o suor  

do mesmo sal  

agora se entretecem:  

- na falsa fundura dos lagos,  

peixes de água   

banham-se sem nenhuma verdade.

E dançam   

como se houvesse eternidade. 


terça-feira, fevereiro 18, 2025

Parabéns Tinhosa.

Espero mesmo que esteja tudo bem na tua vida e que vivas mais um ano maravihoso.

terça-feira, fevereiro 11, 2025

sigo no encalço do que nunca será antigo.


O teu corpo,  

deixou sem sal o mar.

Em mim restou  

um respirar de marés,   

oceano náufrago,   

afogadas sombras de água. 

Eis a praia  

em que estiveste deitada:  

não há areia  

que não desenhe o teu passo.

Descalço sobre o Sol  

sigo no encalço do que nunca será antigo. 

De quem fui onda,  

sou agora espuma,  

búzio seco,  

lembrança de viagem nenhuma.

A lágrima e o suor  

do mesmo sal  

agora se entretecem:  

- na falsa fundura dos lagos,  

peixes de água   

banham-se sem nenhuma verdade.

E dançam   

como se houvesse eternidade. 



segunda-feira, fevereiro 10, 2025

Solitários.

 "Que um rio só é eterno porque vive de outras águas. Solitários, os rios adoecem."


segunda-feira, fevereiro 03, 2025

mas não cura a cicatriz

 

a minha avó repete:


o tempo cura a ferida

mas não cura a cicatriz

e nenhum outro poema


de nenhum outro poeta

me falou tão alto ao ouvido

terça-feira, janeiro 28, 2025

O mar nos olhos.

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor

Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos

Ficam para além do tempo

Como se a maré nunca as levasse

Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

pela grandeza da imensidão da alma

pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...

Há mulheres que são maré em noites de tardes...

e calma


sexta-feira, janeiro 24, 2025

Volta até mim.

Volta até mim no silêncio da noite a tua voz que eu amo, e as tuas palavras que eu não esqueço. Volta até mim para que a tua ausência não embacie o vidro da memória, nem o transforme no espelho baço dos meus olhos. Volta com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário vestido com a mortalha da névoa; e traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam.



terça-feira, janeiro 21, 2025

como se fosse o coração a única fonte do que dizemos.

As confidências demoram-se no céu da boca

como as nuvens lentas do Outono. Sopro-as,

para que o céu se limpe e apenas uma névoa vaga

se cole ao que me queres dizer; mas

encostas-me os lábios ao ouvido e tu, sim,

é que me contas que céu é este, e de onde

vêm as nuvens que o cobrem. Sentimentos,

emoções, paixões, interpõem-se entre

cada frase. Nem há outros assuntos

quando nos encontramos, e me começas a falar,

como se fosse o coração a única

fonte do que dizemos.


segunda-feira, janeiro 20, 2025

A intenção de mim és tu.

 Tenho a sede das ilhas

e esquece-me ser terra

meu amor, aconchega-me

meu amor, mareja-me

Depois, não

me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar

a intenção de mim és tu.






quarta-feira, janeiro 15, 2025

Não sei como

A minha estratégia

é que um dia qualquer

não sei como nem sei

com que pretexto

por fim me necessites.